quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Medo
terça-feira, 6 de maio de 2025
Angélica
Reencontrei Angélica.
Não de verdade, não de carne e osso.
Reencontrei sua foto.
Seus lábios carnudos
trouxeram à tona
a memória de um beijo
roubado no banco do carro
na penumbra de uma noite louca.
Seu olhar lascivo
parecia olhar-me diretamente
pedindo o amor
que nem sei por qual motivo
jamais se concretizou.
Fui correndo procurá-la
numa rede social.
Encontrei-a casada
com ares de felicidade.
Desisti de mais um hipotético amor.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
MORREREMOS
terça-feira, 10 de setembro de 2024
ENTRE O RISO E O CHORO
Entre o riso e o choro
cabe todo o universo.
Cabem cinquenta mil tons
de emoções, gozos e dores.
Entre o riso e o choro
cabe a ternura do berço;
cabe a angústia do esquife.
Entre o riso e o choro
cabem as acnes do adolescente;
cabem as rugas do idoso.
Entre o riso e o choro
cabe a festa das núpcias;
cabe a audiência do divórcio.
Entre o riso e o choro
cabem os vigorosos goles da cachaça;
cabem os amargos remédios da cirrose.
Entre o riso e o choro
cabem os amorosos conselhos dos pais;
cabem as inconsequências da teimosia dos filhos.
Entre o riso e o choro
cabem os abraços dos amigos;
cabem as porradas dos inimigos.
Entre o riso e o choro
cabem os amores aconchegantes e sóbrios;
cabem as aventuras tórridas e loucas.
Entre o riso e o choro
cabem as orientações do professor;
cabem as broncas homéricas do chefe.
Entre o riso e o choro
cabem todas as nossas incoerências;
cabem todas as nossas lógicas.
Entre o riso e o choro
cabem as noites de farra;
cabem os dias de luta.
Entre o riso e o choro
agem as mãos alvissareiras do obstetra;
agem as mãos funestas do legista.
Entre o riso e o choro
cabe a meiguice da prece;
cabe a aspereza do palavrão.
Entre o riso e o choro
cabe o enlevo do beijo;
cabe a secura do tapa.
Entre o riso e o choro
cabe a primavera de um "eu te amo";
cabe o outono de um "desapareça da minha frente".
Entre o riso e o choro
cabem os sinos da fé contrita;
cabe a inflexão do ateísmo declarado.
Entre o riso e o choro
cabem o lar e o boteco;
cabem a igreja e o meretrício;
cabem a ordem e a anarquia;
cabem o grito e o silêncio;
cabem a dor e o prazer;
cabem o tesão e a impotência.
Entre o riso e o choro
cabem o eterno e o finito;
cabem a sabedoria e a estupidez;
cabem a poesia e a prosa;
cabem o sagrado e o profano.
Enfim...
Entre o riso e o choro
cabe a esperança de TUDO,
tanto quanto o abismo do NADA.
segunda-feira, 5 de junho de 2023
Visita de domingo
Sujeito que à minha porta bate,
envolto em andrajos encardidos.
Peito arfante encharcado de esperança.
Pele ressequida pelo sol inclemente.
No estômago vazio, a acidez da expectativa.
Acumula horas (talvez dias) de funda fome.
Pernas vacilantes, ombros pensos, boca seca.
Diante dos meus muros, apequenado em sua miséria,
aguarda que uma voz suave surja do interfone.
Adiando afazeres frugais de um domingo outonal,
examino o monitor, retiro o fone do gancho,
ensaiando, para cada possível solicitação,
uma resposta impessoal, fria e repelente.
"Senhor, teria algo pra eu comer?"
"Senhor, um pão amanhecido, que seja?"
"Senhor, tem recicláveis?"
"Senhor, um copo d'água, por favor?"
Vergonhosa é a rapidez com que,
escudado pelo aparelho eletrônico, livro-me dele.
Livrando-me, assim, da melhor chance
que o domingo me ofereceu para ser bom e útil.
Muito mais que muros, cercas e câmeras,
O que nos separa é um "não sei quê".
Algo que minha palavra não explica,
que minha inteligência não examina,
que minha consciência insiste em anestesiar.
Enfim, ele se vai, um tanto mais abatido,
encontrar-se com o próximo interfone, sonhando piedade.
Mergulho novamente em meu domingo classe-média.
Quando, enfim, chega a noite, dirijo até o templo espírita.
Lá, vou pregar o Evangelho.
sábado, 11 de junho de 2022
Casa Vazia
O dia finda e um sol sem graça e exausto se deixa devorar pelo horizonte.
sábado, 15 de janeiro de 2022
Uma prova chamada solidão
Geme minh'alma desde há muito
premida , torturada e abusada
em todas as suas dobras e desdobras
pelo mais temível dos algozes: a solidão.
Em vão vasculho memórias -
até mesmo de vidas outrora vividas -
que revelem tão cruel crime possa eu ter perpetrado
a ponto de, na infausta hora presente, ser condenado
ao suplício do não-amar e não ser querido.
Com que habilidade terei eu me doutorado,
nas encarnações pretéritas,
na controversa arte de desperdiçar amigos,
tanto quanto na incompetência para cultivar amores?
Dia após dia, esforço-me por aprender a lidar
com esse maldito silêncio em casa.
Silêncio de não ouvir esposa dizendo "meu bem"
nem crianças vivazes gritando "papai!"
Sejam quentes, frios ou chuvosos os dias,
sigo vitimado pela sede brutal, jamais saciada
por sequer um afeto sincero.
Numa sinistra e extenuante rotina,
assisto calmamente meus dias se esvaírem,
e vou me resignando em ver minha carcaça envelhecer,
meus cabelos branquearem e a virilidade titubear.
Resta saber quanto será a duração desta pena.
segunda-feira, 20 de julho de 2020
Quem sabe?
Um "quem sabe?" é uma espécie de reticência eterna, pulsante e covarde. É a sombra do possível que se arrasta atrás do ser curvado e melancólico a caminhar pelo vazio da casa que, no fundo, é a expressão tosca do vazio do próprio ser, escravizado pelo martelar dos segundos implacáveis no relógio empoeirado suspenso na parede.
Um "quem sabe?" é a voz titubeante e débil da não-decisão. É a recusa a se posicionar diante da vida. Vida que não suporta muros para se sentar em cima.
Um "quem sabe?" é a covardia do homem. É o grito de sua alma incapaz de protagonizar a própria vida, preferindo o estúpido lugar de coadjuvante na história alheia.
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Essência
outros dias, carência.
Posso ser turbulência.
Quase sempre, veemência.
Também me definem,
vez em quando,
arroubos de eloquência
Em dias mornos, indolência.
Meu empenho é sempre
desenvolver paciência,
cultivar a benevolência,
amar sem intermitência.
No furor da existência,
dou-me por satisfeito,
se nas tantas vicissitudes,
eu mantiver minha ESSÊNCIA.
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Chuva de domingo
em que coubesse exatamente
o inusitado, a surpresa
do meu olhar encontrando o teu.
Contudo, quando se trata de olhares,
de surpresas boas e outros sabores,
palavras ficam tímidas, revelam-se
limitadas para exprimir o arfar do peito.
Eu poderia apenas dizer que se tratava
de uma manhã chuvosa de domingo
em que nos apertamos as mãos cordialmente.
Por certo narraria o fato em si.
Tal narrativa, porém, encobriria algo
mais fundamental que qualquer "fato em si"
a sensação inédita de terem meus olhos
encontrado outros há muito procurados.
Abençoada manhã chuvosa de domingo!
domingo, 24 de março de 2019
Tolo Coração
depois de décadas acreditando
que o amor fosse porto seguro
descobri-o mar revolto, indômito.
No cais sombrio em que ancorei
minhas mais sinceras esperanças,
um vento gélido e úmido
todos os dias balança minha nau vazia.
E o quebrar violento das ondas
que se arrebentam nas pedras do ancoradouro
é metáfora a dizer sobre tantos golpes
sofridos e ressofridos por esta alma incorrigível.
Por que não naufraga logo, alma minha,
no oceano tétrico diante de ti?
Tudo isso é medo de encontrar os cadáveres
dos desejos que sucumbiram sem ver a margem?
sábado, 14 de outubro de 2017
Itinerário
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Mutismo
o telefone e eu
nos olhamos teimosamente.
Eu esperando
que ele me fale de você.
Ele calado,
simplesmente alimentando
minha ansiedade.
domingo, 11 de setembro de 2016
Santo
eu desejava ser santo.
Tanta coisa eu desejava
quando menino!
Santo parecia nobre,
era fabuloso
sonhar sê-lo
ainda que mutilasse
e mesmo que eu não soubesse
todas as implicações
de ser santo.
Por ser o santo de barro
eu inda não sabia
que havia corrido sangue
nas suas santas veias.
Hoje eu sei duramente
que santo, em verdade,
não nasce santo.
domingo, 28 de agosto de 2016
Desenhador de letras
domingo, 28 de junho de 2015
Urgência
sábado, 31 de janeiro de 2015
Entrelinhas
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
A Tolice e o Amor
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
O Amor
saudosa alegria
dos dias vividos
ao lado de um alguém.
Cheiros, sabores, sons...
Suga minha memória
o buraco negro da solidão.
O sentimento que um dia
batizou-me no altar da paixão,
agora não passa de um desejo
irrealizável e tolo.
Desejo o arrebatamento.
Quero ausentar-me um pouco
desse mundo aceitável
que plasmei para mim mesmo.
Nesse momento, para o amor
sou uma equação que não fecha.
