quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mutismo

A horas
o telefone e eu
nos olhamos teimosamente.

Eu esperando
que ele me fale de você.

Ele calado,
simplesmente alimentando
minha ansiedade.

domingo, 11 de setembro de 2016

Santo


Quando criança
eu desejava ser santo.
Tanta coisa eu desejava
quando menino!

Santo parecia nobre,
era fabuloso
sonhar sê-lo
ainda que mutilasse
e mesmo que eu não soubesse
todas as implicações
de ser santo.

Por ser o santo de barro
eu inda não sabia
que havia corrido sangue
nas suas santas veias.

Hoje eu sei duramente
que santo, em verdade,
não nasce santo.


domingo, 28 de agosto de 2016

Desenhador de Letras


Sinto imensa saudade
de desenhar letras.
O teclado prático do computador
não me deixa mais fazê-lo.

Quase me esqueci
da graça das vogais
da versatilidade das consoantes.

Ah, a maciez do caderno!
O cheirinho de papel novo!
As sílabas surgindo
De movimentos bem calculados.

Nunca gostei de letra feia.
Escrevia sempre com esmero,
contendo a pressa que
as ideias reclamam.

Ideias tendem a atropelar a mão.
Talvez por que elas é que sejam
verdadeiramente importantes e urgentes.

Bendita seja a escrita que,
no enfileirar das letras
estende um tapete vermelho

para o desfile do ideário.

domingo, 28 de junho de 2015

Urgência

O tempo é agora.
A hora é já!
O fazer não espera.
O realizar urge.

Porque o ontem
desvaneceu em meio
a uma poeira fina e débil.
E o amanhã é só um espectro.

Portanto, não espere.
Não adie o amor, o perdão,
o carinho, o aperto de mão.
Não negue hoje.
Não se negue hoje.

Basta um infarto,
uma derrapagem na estrada,
um aneurisma ou
um avião que some do radar.

E o calendário de amanhã
será marcado pelas lágrimas
dos que nos amaram
e não puderam dizer.

Basta um bandido desalmado,
um ataque cardíaco,
um cachorro raivoso
ou um engasgo estúpido.

Você e eu não teremos mais
a chance de significar um para o outro.
Passaremos sem saber
o que teria sido, como teria sido.

A vida é ávida
a respiração pede sustos.
Os olhos mais felizes
são os que choraram emoções vividas.

As memórias só são memórias
para quem não protelou,
para quem entendeu cada segundo de vida
como um instante irrepetível e inalienável.

O tempo não perdoa

quem nada faz dele.