quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mutismo

A horas
o telefone e eu
nos olhamos teimosamente.

Eu esperando
que ele me fale de você.

Ele calado,
simplesmente alimentando
minha ansiedade.

domingo, 11 de setembro de 2016

Santo

Quando criança
eu desejava ser santo.
Tanta coisa eu desejava
quando menino!

Santo parecia nobre,
era fabuloso
sonhar sê-lo
ainda que mutilasse
e mesmo que eu não soubesse
todas as implicações
de ser santo.

Por ser o santo de barro
eu inda não sabia
que havia corrido sangue
nas suas santas veias.

Hoje eu sei duramente
que santo, em verdade,
não nasce santo.


domingo, 28 de agosto de 2016

Desenhador de letras

Sinto imensa saudade
de desenhar letras.
O teclado prático do computador
não me deixa mais fazê-lo.

Quase me esqueci
da graça das vogais
da versatilidade das consoantes.

Ah, a maciez do caderno!
O cheirinho de papel novo!
As sílabas surgindo
De movimentos bem calculados.

Nunca gostei de letra feia.
Escrevia sempre com esmero,
contendo a pressa que
as ideias reclamam.

Ideias tendem a atropelar a mão.
Talvez por que elas é que sejam
verdadeiramente importantes e urgentes.

Bendita seja a escrita que,
no enfileirar das letras
estende um tapete vermelho

para o desfile do ideário.

domingo, 28 de junho de 2015

Urgência

O tempo é agora.
A hora é já!
O fazer não espera.
O realizar urge.

Porque o ontem
desvaneceu em meio
a uma poeira fina e débil.
E o amanhã é só um espectro.

Portanto, não espere.
Não adie o amor, o perdão,
o carinho, o aperto de mão.
Não negue hoje.
Não se negue hoje.

Basta um infarto,
uma derrapagem na estrada,
um aneurisma ou
um avião que some do radar.

E o calendário de amanhã
será marcado pelas lágrimas
dos que nos amaram
e não puderam dizer.

Basta um bandido desalmado,
um ataque cardíaco,
um cachorro raivoso
ou um engasgo estúpido.

Você e eu não teremos mais
a chance de significar um para o outro.
Passaremos sem saber
o que teria sido, como teria sido.

A vida é ávida
a respiração pede sustos.
Os olhos mais felizes
são os que choraram emoções vividas.

As memórias só são memórias
para quem não protelou,
para quem entendeu cada segundo de vida
como um instante irrepetível e inalienável.

O tempo não perdoa

quem nada faz dele.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Entrelinhas


Em todas as palavras
Há um silêncio
Um não-lido,
Um não-escrito

Um não-gritado
Que aos poucos
A poesia extravasa
Em forma melódica
Às vezes tórrida.

Em todo gesto
Há um não-demonstrado
Um “tente adivinhar!”
Um “decifra-me ou te ignoro”

A beleza de certas coisas
Nasce do não dito
Do não expresso,
Que parece feio ou grosseiro.

Aí é que entra a poesia
Cantando o que nunca se diz
Melodiando  o que jamais se explica
Revirando as vísceras das entrelinhas.

É isso o que me faz
Amar a poesia.
É isso o que me motiva
A não desistir dela:

Gritar as entrelinhas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A Tolice e o Amor

Ao meu redor, todo o espaço inútil
de uma solidão sem sentido.
E um monstro patético abraça-me
enquanto se ri de minha credulidade no amor.

No peito um coração abatido,
consoante minh ‘alma atormentada.
Um querer ilegítimo e absolutamente sedutor
Conduzira-me pela mão até a beira do precipício.

Mas a tolice, inimiga de tantos,
é minha fiel escudeira e evitou-me a queda.
A tolice e o amor, algemas irremovíveis
de meu espírito romântico.

Afinal, só se tem o direito de ser tão tolo
quando se tem consciência da própria tolice.
E isso eu tenho, embora não aprenda nada
nem com a consciência nem com a estultícia.

Faz muito calor na cidade,
Mas dentro de mim o sangue
parece correr gelado e amargo nas veias.

O sol brilha radiante lá no céu.
Contudo, o teto do meu quarto
assemelha-se a um céu sem estrelas.


E sem redenção.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Amor

Brisa úmida,
saudosa alegria
dos dias vividos
ao lado de um alguém.

Cheiros, sabores, sons...
Suga minha memória
o buraco negro da solidão.

O sentimento que um dia
batizou-me no altar da paixão,
agora não passa de um desejo
irrealizável e tolo.

Desejo o arrebatamento.
Quero ausentar-me um pouco
desse mundo aceitável
que plasmei para mim mesmo.

Nesse momento, para o amor
sou uma equação que não fecha.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Descompasso

Me olhas
mas não me vês.
Me ouves,
porém não me escutas.

Nada há que me peças
que eu não te tenha
oferecido antes.

Assim ficamos os dois:
incomunicáveis
em toda a nossa eloquência.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Laços e passos

Contrariando todas as previsões,
substituindo todas as reticências
por um ponto final desabado,
os caminhos incertos dessa vida
nos separaram lentamente.

E, embora o sabor de um passado
doce como maçã do amor mordida,
minha língua foi em busca de outros paladares.

Não obstante o cheiro de nossos suores misturados,
meus poros se abriram para a aproximação
de outra pele e de um perfume inédito.

Uma brisa soprada do norte,
teimosa e úmida como promessa de chuva de verão,
virou uma página a mais do livro da minha vida.

Minhas pernas rijas voltaram a caminhar,
meus lábios ensaiam sorriso tímido
e o coração, esse continua batendo firme.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Minutos de Vida

Durante alguns minutos eternos,
pousei o olhar sobre os desenhos
curiosos do meu cobertor.

As paredes opacas do quarto
desejaram desabar sobre meu corpo
por que não pendurei nelas
nenhum quadro ou fotografia

Eu bem queria ter pendurado
um espelho daqueles de corpo inteiro.
Mas concluí que não suportaria
olhar-me morrendo dia após dia.

Algumas rugas nascendo,
uns indícios de cabelos brancos
e a constatação dolorida de que
estou vendendo meus anos bem barato.

Essa vida não é senão um morrer cotidiano,
lento e gradual, civilizado e heroico.
Um morrer lento e irreversível.

Onde o amor, onde o viço de outrora?
Cadê os sonhos, os ideais?
O vento voluptuoso da paixão, quando findou?

Que dor imbecil essa, de não poder girar
ao contrário a roda do tempo.
Meu rosto de moço era liso
e as lágrimas que nele escorriam
tinham razões tão tolas!

domingo, 21 de abril de 2013

SEPARAÇÃO


Certo dia chegará
em que, tateando as paredes nuas
da sombria mansarda do em que vives,
tua mão não se deparará mais com a minha.

Um calafrio inédito percorrerá teu corpo
ao te dares conta de que não estarei sempre ali,
conforme houvera te prometido tantas vezes,
quando eu inda cria que seríamos um do outro pelos séculos.

As pontas dos teus dedos finos
procurarão desesperadamente enlaçar-se nos meus,
que terão se ausentado definitivamente.
E ficarás perdida nos labirintos que criastes para si.

Nesta hora, se te sobrar um lampejo de lucidez,
refletirás e concluirás que, em verdade, jamais estivemos juntos,
embora andássemos em paralelo.
Sempre estivemos distantes, por opção de um de nós, que não eu.

E perceberás que, pouco a pouco, fizestes escolhas.
E que estas escolhas é que me privaram da tua vida.
E nos colocaram falando palavras dóceis,
de costas um para o outro.

Eu estarei longe, nesta hora.
Provavelmente chorando a desdita
de ter estacionado a minha vida
aguardando que me alcançasses pelo caminho.

Estarei apavorado, por certo, como estou agora.
Pois terei tomado consciência
de que o amor que a ti me manteve ligado
era canção de uma nota só, melancólica e lúgubre.

Não mais pedirei que me ames.
Tampouco que compreendas meu amor.
Pois um amor que necessita ser compreendido,
não merece ser vivido.

Deste dia em diante
saberás continuas sozinha
e que eu continuo sozinho.
Como sempre estivemos, em verdade.

domingo, 17 de março de 2013

O velho agricultor



No sopé de uma montanha íngreme, um velho agricultor cultivava com dificuldade uma pequenina propriedade rural. Com pouquíssimos recursos materiais e minguadas forças para o duro trabalho do campo, só podia contar com o jovem filho e um cavalo, animal forte e bom de arado.
Num amanhecer em que a neblina densa confundia a vista, o pobre sitiante levantou-se para a lida. Mas, quando foi buscar seu cavalo no pasto, notou que a porteira do sítio ficara aberta durante a noite e o animal fugira.
Cabisbaixo e pensativo, ele voltava para casa quando, um sitiante vizinho, observando apoiado na cerca de arame, começou a dizer:
- Puxa vida! Que desgraça foi lhe ocorrer, meu vizinho! Percebo que teu animal fugiu e não terás agora como cultivar a terra adequadamente. Lamentável!
O pobre sitiante redarguiu, serenamente:
- Bem, meu caro vizinho, pode ser uma desgraça ou não... Só o tempo irá dizer, nada de desespero.
Dizendo isso, recolheu-se à sua casa e foi avisar a esposa e o filho do acontecido, sem maiores lamentações, posto que era um homem muito confiante e centrado, não obstante sua pouca cultura.
Por três dias o velho agricultor e seu filho realizaram todas as suas tarefas com o mesmo empenho de sempre, sem poder contar com o cavalo que desaparecera. Em nenhum momento lamentaram ou desanimaram da lida, embora seus corpos estivessem moídos pelo esforço dobrado.
Depois desse período, em que a porteira do sítio permanecera aberta, amanheceram ele, a esposa e o filho, ouvindo ruídos e relinchos diversos dentro dos limites do sítio, bem próximo ao quintal da casinha simples que habitavam.
Ao abir a porta do casebre, perceberam que o cavalo retornara para a propriedade, acompanhado de mais cinco animais robustos, selvagens, certamente oriundos das matas por onde andara.
O agricultor e seu filho rapidamente improvisaram um estábulo, onde prenderam os cavalos e lhes deram água e comida.
O vizinho do sítio ao lado não tardou a bisbilhotar o que se passava ali e, surpreso com a tropa de que dispunha o, até então, pobre sitiante. E foi logo gabando:
- Minha nossa, mas que sorte tens, meu bom vizinho! Não só recuperaste teu cavalo, mas agora tens mais cinco deles. E ainda mais novos e mais robustos! Poderás até mesmo ficar com apenas mais um ou dois e vender os outros por boa quantia em dinheiro e comprar maquinários modernos para a lavoura. Assim irás enriquecer!
Ponderado e discreto, respondeu o pobre agricultor:
- Pode ser sorte ou desgraça, meu estimado vizinho. Só o tempo irá dizer.
Na tarde do mesmo dia, seu jovem filho começou a montar os cavalos selvagens, afim de adestrá-los para a lida. Sem isso, não passariam de animais brutos, que poderiam até causar danos à propriedade e não serviriam ao trabalho exigente da lavoura.
Cada montaria que o moço fazia era perigosíssima, pois os animais não aceitavam ser domados e reagiam com furor, pulando, empinando e relinchando muito. Bem no finalzinho da tarde, aconteceu um acidente. Um cavalo derrubou ao chão o filho do sitiante e pisou sua perna com violência, fraturando-a em dois pontos.
O vizinho falastrão, que assistia à doma dos anmais, logo levou às mãos à cabeça, como se ele mesmo fora acometido de imensa dor pelas fraturas do jovem. Bradou:
- Meu Deus! Que desdita veio agora a te atingir, meu amigo! É chegada a época do plantio e teu filho ficará longas semanas acamado, sem poder ajudar-te nas tarefas do sítio. De que adianta teres uma tropa dos melhores e mais dóceis cavalos, se não tens teu filho para conduzi-los e tuas poucas forças de velho não te ajudam? Sem dúvida, estais desgraçado! Não poderás plantar a lavoura e, sendo assim, não terás colheita!
Enquanto socorria seu filho e tratava de imobilizar a perna fraturada, com serenidade e sem nenhum traço de desespero, o idoso respondeu educadamente ao seu intrometido vizinho:
- Posso estar desgraçado ou não, bom amigo. Vamos aguardar os acontecimentos e cuidar da perna do garoto. Tudo se ajeitará, tenho certeza.
E assim recolheram-se para o casebre, onde o filho passaria dias sofrendo com muitas dores e afastado do trabalho.
Durante o período de recuperação lenta do jovem, o país em que viviam entrou em guerra contra uma nação distante. Todos os jovens da sua faixa etária foram alistados ao exército compulsoriamente. Os generais ordenaram que se visitassem cada canto do país e arrancassem os jovens de suas famílias para irem à refrega, defenderem os interesses da nação na guerra, que prometia ser longa e penosa.
Quando os responsáveis pelo alistamento visitaram a região em que o jovem agricultor vivia, ele foi poupado, posto que não houvesse possibilidade sequer de caminhar com a perna fraturada. De maneira alguma seria útil no front. Os filhos do vizinho, no entanto, que eram três jovens sadios e fortes foram todos arrastados pela onda bélica.
Não tendo mais os filhos para cuidar da propriedade enquanto ele mesmo cuidava da vida dos vizinhos, não mais teve tempo de se ocupar da vida alheia.
A guerra foi mesmo longa e sangrenta. Inúmeros navios haviam partido do país, lotados com os jovens soldados, muitos dos quais jamais retornariam.
O jovem agricultor, ainda acamado, todas as tardes acompanhava os noticiários por meio de um singelo radio a pilha, junto com seus pais. A cada tarde, ouvia notícias terríveis de mais e mais baixas nas tropas de seu país.
E todos os dias se colocavam em oração. Pediam a Deus pelo fim do confronto, suplicavam  socorro espiritual às centenas de moços que desencarnavam pelejando pela nação e não deixavam de agradecer por aquele incidente que prostrara o jovem por semanas, poupando-o do conflito e possivelmente da morte.

A grande lição desta parábola, que não é de minha autoria, mas que ouvi há tempos e da qual desconheço o autor, é que devemos ter sempre serenidade, resignação e paciência diante de todos os acontecimentos da vida, sejam eles alegres ou tristes, positivos ou aparentemente negativos. Pois aquilo que à primeira vista pode ser um mal sem remédio, pode ser a salvação de uma situação verdadeiramente trágica. Enquanto que aquilo que pode nos parecer a maior alegria de toda uma existência pode acabar nos provocando danos dificílimos de ser reparados, seja moralmente, moralmente ou à nossa integridade física.
Dizia Paulo Apóstolo: “Todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus” e “Em tudo dai graças”

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

FELIZ TRANSFORMAÇÃO


Aproxima-se o réveillon.
Um dezembro meio calado afivela suas malas já com certa pressa. Dentro delas, bem acomodadas, todas as lembranças e histórias, alegrias e tristezas, benesses e agruras dos últimos trezentos e sessenta e tantos dias.
O ano de número dois mil e doze, que há aproximadamente trezentos e sessenta e poucos dias nós esperávamos com ansiedade e expectativa, agora vai saindo de cena, cansado, surrado, por alguns até amaldiçoado.
E nós? Como nós ficamos?
Simples: nós ficamos aqui, preparando os caminhos para um outro ano, jurando uns aos outros e tentando nos convencer a nós mesmos de que será um ano maravilhoso, repleto daqueles votos que repetimos incansavelmente durante os intermináveis abraços e apertos de mão que distribuímos entre o dia de Natal e o trinta e um de dezembro. Muita paz, saúde, prosperidade, dinheiro no bolso etc. ... Tenho a sensação de que cada um de nós, ao repetir a cantilena de votos de um novo ano melhor, na verdade, intimamente ficamos tentando nos convencer de que, por alguma mágica maluca, a mudança do calendário por si só há de melhorar o mundo e as pessoas – desde que eu mesmo não esteja incluído nesse grupo que necessita de melhoria, afinal, são os outros que têm que melhorar para tornar minha vida mais palatável.
De minha parte, mesmo antes de desenvolver o hábito de refletir mais profundamente sobre a vida, eu já nutria certa desconfiança em relação a essa crença de que mudando o número do calendário, há uma chance excepcional de que tudo a minha volta se transforme para melhor e que a vida passe a sorrir mais para mim.
Esse texto mereceria aqui um parênteses para falar do talento e das teses dos numerólogos, tarólogos, astrólogos e mais alguns “ólogos” que defendem suas teses sobre influência dos números ou dos astros ou seja lá o que for sobre o nosso destino. Mas, confesso duas inconveniências: primeiro, que, na tentativa de explicar tais teses, esse parênteses ficaria longo demais; segundo, que eu não creio nem um pouquinho nessas teorias. E, como o texto é meu, posso me conceder a prerrogativa de não dar espaço ao que eu não creio. Mesmo sob pena de alguns dos meus leitores se sentirem ofendidos em suas crenças e abandonarem aqui a leitura.
O âmago da questão – não vou mais fazer rodeios – é que, ano após ano, temos a sensação de que tudo à nossa volta se repete, remetendo-nos à velha máxima contida no capítulo um do Livro do Eclesiastes: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que não há nada de novo debaixo do sol”.
Qualquer um que deseje constatar modernamente esse estado de coisas, poderá fazê-lo facilmente realizando uma pesquisa sobre os arquivos de noticiários de anos anteriores, hoje facilmente encontrados numa rápida busca pela internet. Encontrará lá textos, áudios ou vídeos que praticamente, dezembro após dezembro, se repetem sobre violência, acidentes de trânsito, corrupção, desastres naturais, crises nos mais diversos setores da administração pública, impostos, custo de vida, crescimento econômico etc.
Quer um exemplo de notícia que a cada ano está na pauta dos noticiários, com as mesmas palavras? Aí está: “Bancos anunciam lucros recordes no ano de....” Pode preencher com o ano que desejar e você não estará mentindo. E nós, imensa maioria de brasileiros – os que não pertencemos à classe A – nos indignamos ao lembrar o quão minguado é nosso ganho, quantas taxas pagamos para manter nossas contas bancárias e quão pesados juros pagamos a esse sistema bancário para conseguirmos comprar uma casa ou um carrinho novo. Nessa hora, amaldiçoamos os ricos banqueiros, fazemos votos de nunca mais financiar nada. Os mais radicais prometem-se a si mesmos fechar a conta no banco e isso e aquilo... Promessas, nada mais. No ano seguinte, estaremos ouvindo a mesma notícia, com a mesma indignação e fazendo as mesmas promessas.
Esse exemplo do lucro dos bancos é apenas para ilustrar o fato de que em tudo nas nossas vidas, entra ano e sai ano, fazemos promessas de mudanças, votos de transformação e vamos repetindo à exaustão um modelo de vida e um corpo de crenças e ideologias que nos mantém atrelados a nossos pequenos vícios, às pequeninas imperfeições e preguiças que, somados, travam nosso progresso pessoal e assim esmaece o brilho dos votos que nos fazemos uns aos outros sob os fogos de infinitas noites de réveillon.
Portanto, o que nós precisamos, mais do que um novo calendário, é de novas atitudes. Mais do que promessas regadas a champanhe e sopa de lentilhas, necessitamos é de uma decisão firme e coerente em prol da nossa transformação pessoal, da qual nascerá a transformação da sociedade.
Podem vir 2013, 2014, 2015. Se esses novos números nos encontrarem refratários às mudanças, hábeis apenas em pronunciar belos – e estéreis – presságios aos outros, o país nunca será aquele que sonhamos.
Por isso, eu desejo a você que está lendo esse texto, não saúde ou prosperidade, ou dinheiro no bolso. Desejo a você, atitude.
Desejo a você que pare de olhar para o calendário e volte os seus olhos para o seu interior, num profundo e sério exame de consciência, a fim de detectar onde está a necessidade de transformação para que você passe a ser tudo aquilo de bom que deseja aos outros, seja em janeiro, fevereiro ou setembro, seja que ano for.

FELIZ TRANSFORMAÇÃO!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Você vem

Eu não te conheço,
não sei quais são seus planos,
não ouvi sua voz nem sei
o cheiro do seu perfume.

Mas sei que você vem,
com seus risos e discursos,
com seus prantos e sonhos.
Vem com uma vida toda sua.

Eu te receberei em meu quintal,
onde cantam passarinhos,
onde gotas de chuva já lavaram
meus rastros e minhas lágrimas.

Meu quintal é enorme,
pedaço cimentado de mim mesmo,
onde lânguidos raios de sol se deitam
todas as manhãs.

Lá tem uma cadeira de balanço,
uma mesinha redonda de vime.
Sobre ela uma taça de licor de jabuticaba.
As paredes são de um verde cansado e pálido.

Quando você finalmente vier,
lá terá também alegria.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

MEU ANIVERSÁRIO


Fazer aniversário, completar mais um ano como vivente sobre esta terra, em meio a essa gente.
Contar os anos, os meses, os dias. Talvez ir além e tentar descobrir quantas vezes o meu coração bateu nesses trinta e oito anos de atividade biológica de meu corpo físico.
Enfim, há tantos números que possam dar uma idéia mais ou menos aproximada do que significou e significa ser Eu imerso nessa realidade chamada vida física.
Mas nenhum exercício de álgebra jamais poderá calcular as alegrias, as tristezas, as conquistas e derrotas, as decepções e surpresas, as lágrimas e os sorrisos. Por um motivo muito simples: ser não é nada matemático, não há nada de exato e plenamente mensurável em tudo o que vivi nesses trinta e oito longos anos.
Não vou fazer um balanço, primeiramente por que balanço dá aquela sensação de encerramento de atividades, de “fechamento de firma”. Quem faz balanço normalmente busca apurar algum ganho ou detectar perdas, por o lucro no bolso e partir. E eu, definitivamente, não estou nem um pouco a fim de partir ainda.
Não dizem que antes de morrer um homem precisa ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore? Pois eu ainda estou devendo à vida o livro e o filho. Portanto, nada de balanço ainda. Nada de encerramento de atividades.
Em segundo lugar, não vou fazer balanço porque isso implica ficar remexendo coisas velhas, olhando demais para o passado e julgando-me a mim mesmo e às situações pelas quais passei. Taí outra coisa que não estou disposto a fazer: ficar olhando para trás. Meu objetivo é olhar cada vez mais para frente, desbravar cada novo dia que o meu Pai me der de presente.
Claro que eu jamais desprezo as experiências do ontem. Elas forjaram muito do meu caráter e me norteiam, sobretudo para que eu não repita erros já cometidos. Afinal, está na hora de cometer erros novos! Mas tenho uma opinião sobre o passado: se ele não pode ser alterado, posso escolher o que dele me aproveita, sem demorar-me muito na sua avaliação. Basta uma olhada rápida, pinçar alguma coisa que funcionou lá e pronto!, voltemos ao presente.
Portanto, depois desses trinta e oito anos em que eu estou Ronaldo Silva, só uma coisa me interessa: planejar com responsabilidade os próximos trinta e oito, caminhar firme e alegre na direção de todas as experiências que me esperam em cada janeiro, fevereiro, março ou dezembro que me aguardam pela frente.
Mas, e se eles não chegarem? Se amanhã essa história se interromper?
Aí, vou contar um segredinho pra vocês: não há interrupção! A vida simplesmente segue, seja aqui, seja do outro lado.
Hoje estou aqui, estou Ronaldo. Amanhã, posso estar noutra família, noutro país, noutro planeta, noutra galáxia. Apenas saibam que eu estarei, sempre, em algum lugar, completando trinta e oito anos infinitas vezes, e sempre olhando para frente.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Caderno Nossas Letras

Desde o dia 10 de junho de 2012, sempre aos sábados o Jornal Comercio da Franca, tem me concedido, amim e a outros vários poetas e escritores amadores, espaço para publicar meus versos em suas páginas, no caderno Nossas Letras.
Sendo o Comércio um jornal de grande circulação em minha cidade e em toda a região, sinto-me privilegiado.
A foto ao lado mostra a poesia publicada no último sábado, dia 17 de novembro.

domingo, 26 de agosto de 2012

Fim de dia

Casebres caiados
banhados pela luz morredoura
de um sol que se dilui no horizonte.

Crianças correndo
pela rua poeirenta
despreocupadas da vida.

Pés descalços,
cabelos desgrenhados,
despedidas dos dentes-de-leite.

Umas poucas peças de roupa
balançam molemente
num varal frouxo, ao fundo do quintal.

Nas cozinhas, as mães catam o feijão
pensando no custo de vida
e na novela das nove.

Um som distante, quase inaudível,
anuncia fim de expediente
na fábrica distante.

Um suarento vendedor de picolés
passa pela vila com seu carrinho,
acionando a buzina rouca e melancólica.

Em pouco tempo um exército de pais
surge lá no início da rua,
carregando cansaço e esperanças.

Num instante pais, mães e crianças
estão em torno à mesa
com suas histórias do dia.

Um jantarzinho singelo
aquece os estômagos e os corações.
Em seguida um cafezinho, à guisa de sobremesa.

Quando todos apoiam as cabeças,
enfim, sobre seus travesseiros,
ninguém tem dúvidas do que seja a felicidade.

domingo, 13 de maio de 2012

As mães são portas

Mãe é muito mais
que um simples nome.
É um título conquistado
pela valentia da mulher
que assumiu as rédeas da vida.


As mães são portas abertas,
ligando a Terra ao Céu.
Por elas transitam anjos de Deus
trazendo alminhas nos braços.


Seu útero é um santuário;
seu coração, templo de oferendas
e sacrifícios ilimitados.

Deus disse tudo sobre as mães,
quando viveu aqui entre nós,
humilde e submisso
à sua filha-mãe Maria.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Eu amei

Eu amei.

Sim, esse meu coração
atrofiado, ressabiado,
já foi acordado
pela doce melodia.

Um dia,
numa data perdida
entre o fim da infância
e o início da vida adulta
eu amei ardorosamente.

Essa é a mais pujante lembrança
que me abrirá a consciência
quando eu penetrar a outra vida.
Eu amei inesquecivelmente.

E como todo amante real
eu ri, chorei, suei frio,
senti o corpo se arrepiar e tremer,
o sangue circular forte.

Nem sempre eu fui essa palmeira
solitária na praia de mim mesmo.
Essa palmeira balançada
pelo vento besta do não-amor.