domingo, 9 de agosto de 2026

Ruy

Meu pai era Ruy.
Meu pai foi Ruy.
Meu Ruy foi lavrador.
Meu pai, Ruy, foi bom.

Confesso: nem sempre eu, filho de Ruy,
fui capaz de enxergar sua bondade.
Talvez isso seja próprio do filho
soberbo, metido a sabichão.

Mas ah! Sábio mesmo era o Ruy.
Daqueles sábios que não desperdiçam
palavras nem gestos à toa.
Sabedoria de matuto, homem do campo.

A casa de Ruy ficou gigante agora.
Perdido nela eu, filho de Ruy que sou,
mergulho em memórias - recentes e antigas.
Casa que já não tem Ruy, silenciosa, empoeirada e triste.

Filho de Ruy, adentro seu quarto
guardado pela imagem de Nossa Senhora.
"Bênça, pai!" Cadê a resposta??

Cadê o tec-tec da bengala tocando o piso?
Está vazio aquele cantinho do sofá
onde Ruy rezava a consagração,
acompanhava os terços e as missas.

Seus instrumentos estão pela casa, inúteis agora.
o pedalinho dos seus exercícios na varanda,
a cadeira plástica que usava pra sentar à calçada
pra observar o movimento da rua.

Seu lugar à mesa da cozinha.
O jardim que ele regava nas tardes de sol.
O criado mudo, onde repousa o rosário.
As sandálias posicionadas ao lado da cama.

Creio que Ruy, meu velho pai, apreciava
um certo silêncio em casa.
Silêncio que eu, filho de Ruy, custo a suportar agora,
nos primeiros arrastados dias de sua ausência.

Nos dias duros, pressentindo seu ocaso,
segurava firme a minha mão, apoio para os deslocamentos.
Um olhar assustado diante da limitação física.
"Será que agora é a morte, meu filho?".

Momento em que Ruy me deixou sem palavras,
imerso num esforço indescritível
para conter as lágrimas.

Meu pai, que foi Ruy, se foi...