Meu pai era Ruy.
Meu pai foi Ruy.
Meu Ruy foi lavrador.
Meu pai, Ruy, foi bom.
Meu pai foi Ruy.
Meu Ruy foi lavrador.
Meu pai, Ruy, foi bom.
Confesso: nem sempre eu, filho de Ruy,
fui capaz de enxergar sua bondade.
fui capaz de enxergar sua bondade.
Talvez isso seja próprio do filho
soberbo, metido a sabichão.
Mas ah! Sábio mesmo era o Ruy.
Daqueles sábios que não desperdiçam
palavras nem gestos à toa.
Sabedoria de matuto, homem do campo.
A casa de Ruy ficou gigante agora.
Perdido nela eu, filho de Ruy que sou,
mergulho em memórias - recentes e antigas.
Casa que já não tem Ruy, silenciosa, empoeirada e triste.
Filho de Ruy, adentro seu quarto
guardado pela imagem de Nossa Senhora.
"Bênça, pai!" Cadê a resposta??
Cadê o tec-tec da bengala tocando o piso?
Está vazio aquele cantinho do sofá
onde Ruy rezava a consagração,
acompanhava os terços e as missas.
Seus instrumentos estão pela casa, inúteis agora.
o pedalinho dos seus exercícios na varanda,
a cadeira plástica que usava pra sentar à calçada
pra observar o movimento da rua.
Seu lugar à mesa da cozinha.
O jardim que ele regava nas tardes de sol.
O criado mudo, onde repousa o rosário.
As sandálias posicionadas ao lado da cama.
Creio que Ruy, meu velho pai, apreciava
um certo silêncio em casa.
Silêncio que eu, filho de Ruy, custo a suportar agora,
nos primeiros arrastados dias de sua ausência.
Nos dias duros, pressentindo seu ocaso,
segurava firme a minha mão, apoio para os deslocamentos.
Um olhar assustado diante da limitação física.
"Será que agora é a morte, meu filho?".
Momento em que Ruy me deixou sem palavras,
imerso num esforço indescritível
para conter as lágrimas.
Meu pai, que foi Ruy, se foi...