Há dias em que sou reticências
outros dias, carência.
Posso ser turbulência.
Quase sempre, veemência.
Também me definem,
vez em quando,
arroubos de eloquência
Em dias mornos, indolência.
Meu empenho é sempre
desenvolver paciência,
cultivar a benevolência,
amar sem intermitência.
No furor da existência,
dou-me por satisfeito,
se nas tantas vicissitudes,
eu mantiver minha ESSÊNCIA.
quinta-feira, 18 de abril de 2019
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Chuva de domingo
Quisera compor um poema
em que coubesse exatamente
o inusitado, a surpresa
do meu olhar encontrando o teu.
Contudo, quando se trata de olhares,
de surpresas boas e outros sabores,
palavras ficam tímidas, revelam-se
limitadas para exprimir o arfar do peito.
Eu poderia apenas dizer que se tratava
de uma manhã chuvosa de domingo
em que nos apertamos as mãos cordialmente.
Por certo narraria o fato em si.
Tal narrativa, porém, encobriria algo
mais fundamental que qualquer "fato em si"
a sensação inédita de terem meus olhos
encontrado outros há muito procurados.
Abençoada manhã chuvosa de domingo!
em que coubesse exatamente
o inusitado, a surpresa
do meu olhar encontrando o teu.
Contudo, quando se trata de olhares,
de surpresas boas e outros sabores,
palavras ficam tímidas, revelam-se
limitadas para exprimir o arfar do peito.
Eu poderia apenas dizer que se tratava
de uma manhã chuvosa de domingo
em que nos apertamos as mãos cordialmente.
Por certo narraria o fato em si.
Tal narrativa, porém, encobriria algo
mais fundamental que qualquer "fato em si"
a sensação inédita de terem meus olhos
encontrado outros há muito procurados.
Abençoada manhã chuvosa de domingo!
domingo, 24 de março de 2019
Tolo Coração
Meu tolo coração,
depois de décadas acreditando
que o amor fosse porto seguro
descobri-o mar revolto, indômito.
No cais sombrio em que ancorei
minhas mais sinceras esperanças,
um vento gélido e úmido
todos os dias balança minha nau vazia.
E o quebrar violento das ondas
que se arrebentam nas pedras do ancoradouro
é metáfora a dizer sobre tantos golpes
sofridos e ressofridos por esta alma incorrigível.
Por que não naufraga logo, alma minha,
no oceano tétrico diante de ti?
Tudo isso é medo de encontrar os cadáveres
dos desejos que sucumbiram sem ver a margem?
depois de décadas acreditando
que o amor fosse porto seguro
descobri-o mar revolto, indômito.
No cais sombrio em que ancorei
minhas mais sinceras esperanças,
um vento gélido e úmido
todos os dias balança minha nau vazia.
E o quebrar violento das ondas
que se arrebentam nas pedras do ancoradouro
é metáfora a dizer sobre tantos golpes
sofridos e ressofridos por esta alma incorrigível.
Por que não naufraga logo, alma minha,
no oceano tétrico diante de ti?
Tudo isso é medo de encontrar os cadáveres
dos desejos que sucumbiram sem ver a margem?
sábado, 14 de outubro de 2017
Itinerário
Eu hoje fugi de
casa, em meio à ventania.
O vento
desalinhou meus cabelos lisos,
mas eu botei
minha boina por cima
da bagunça da
minha cabeça.
O sol fez arder
meus olhos
e eu botei meus
óculos escuros
para esconder
sua irritação.
Vim escrever no
meio do pasto.
Aqui, ao menos,
há vida.
Há a vida velada
no estrume que, pouco a pouco,
vira adubo e
nutre a erva.
Faz tempo que
saí daqui,
peito estufado,
cabeça erguida,
certo de que o
mundo estava doente
e que eu podia
salvá-lo.
Hoje volto
enfermo
de um mal que
parece incurável.
Quando o médico
era eu,
Passei algumas
vezes por estes campos
sem atinar de
olhar para o pasto.
Mas cuspi nele
pela janela do carro.
Sequer olhei
pelo retrovisor
no intuito de
ver onde se assentava a poeira fina
que se erguia à
minha rápida passagem.
Mas tenho
certeza de que pousava sobre a pastagem.
Na verdade,
naquele tempo eu
já havia fugido
de casa.
Só não conhecia
bem a força do vento.
E o sol parecia
não arder tanto aos olhos.
Na fuga
percorri muitos lugares.
Cruzei ruas e
avenidas imensas.
Deparei-me com
diversos olhares
e ouvi centenas
de vozes que, eu sei,
permanecem
dentro de mim, gravadas.
Vi corpos
sensuais em gestos lascivos
na voluptuosidade
das cidades em que perambulei.
Inúmeras vezes,
fiquei insone à noite.
E o vento
finalmente começou a incomodar,
bagunçando-me a
cabeça e os cabelos.
E eu pequei.
desgraçadamente,
pequei de forma incompleta, porque o fiz só.
Se ao menos eu
tivesse pecado por inteiro...
Se tivesse
pecado muito bem acompanhado, haveria um quê de prazer.
E o remorso
seria menos doloroso.
O inferno seria
mais brando,
esta secura
teria, aqui e acolá, gotas de esperança.
Eu agora veria
essa pastagem com outros olhos
e o vento e o
sol não castigariam tanto.
Talvez eu nem
fugisse mais de casa.
Mas o pecado se
multiplica no mundo
graças a homens
como eu,
que se julgam
santos demais e que, ao tropeçarem,
deixam à mostra
toda a sua hipocrisia.
Meu epitáfio
seja:
“Aqui jaz um
desgraçado
que um dia fugiu
de casa
e perdeu-se na
ventania”.
E rezem os que
ainda me amarem
afim de que eu
me torne
ao menos um
montinho de estrume.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Mutismo
A horas
o telefone e eu
nos olhamos teimosamente.
Eu esperando
que ele me fale de você.
Ele calado,
simplesmente alimentando
minha ansiedade.
o telefone e eu
nos olhamos teimosamente.
Eu esperando
que ele me fale de você.
Ele calado,
simplesmente alimentando
minha ansiedade.
domingo, 11 de setembro de 2016
Santo
Quando criança
eu desejava ser santo.
Tanta coisa eu desejava
quando menino!
Santo parecia nobre,
era fabuloso
sonhar sê-lo
ainda que mutilasse
e mesmo que eu não soubesse
todas as implicações
de ser santo.
Por ser o santo de barro
eu inda não sabia
que havia corrido sangue
nas suas santas veias.
Hoje eu sei duramente
que santo, em verdade,
não nasce santo.
eu desejava ser santo.
Tanta coisa eu desejava
quando menino!
Santo parecia nobre,
era fabuloso
sonhar sê-lo
ainda que mutilasse
e mesmo que eu não soubesse
todas as implicações
de ser santo.
Por ser o santo de barro
eu inda não sabia
que havia corrido sangue
nas suas santas veias.
Hoje eu sei duramente
que santo, em verdade,
não nasce santo.
domingo, 28 de agosto de 2016
Desenhador de letras
Sinto imensa saudade
de desenhar letras.
O teclado prático do computador
não me deixa mais fazê-lo.
Quase me esqueci
da graça das vogais
da versatilidade das consoantes.
Ah, a maciez do caderno!
O cheirinho de papel novo!
As sílabas surgindo
De movimentos bem calculados.
Nunca gostei de letra feia.
Escrevia sempre com esmero,
contendo a pressa que
as ideias reclamam.
Ideias tendem a atropelar a mão.
Talvez por que elas é que sejam
verdadeiramente importantes e urgentes.
Bendita seja a escrita que,
no enfileirar das letras
estende um tapete vermelho
para o desfile do ideário.
domingo, 28 de junho de 2015
Urgência
O
tempo é agora.
A
hora é já!
O
fazer não espera.
O
realizar urge.
Porque
o ontem
desvaneceu
em meio
a
uma poeira fina e débil.
E
o amanhã é só um espectro.
Portanto,
não espere.
Não
adie o amor, o perdão,
o
carinho, o aperto de mão.
Não
negue hoje.
Não se negue hoje.
Basta
um infarto,
uma
derrapagem na estrada,
um
aneurisma ou
um
avião que some do radar.
E
o calendário de amanhã
será
marcado pelas lágrimas
dos
que nos amaram
e
não puderam dizer.
Basta
um bandido desalmado,
um
ataque cardíaco,
um
cachorro raivoso
ou
um engasgo estúpido.
Você
e eu não teremos mais
a
chance de significar um para o outro.
Passaremos
sem saber
o
que teria sido, como teria sido.
A
vida é ávida
a
respiração pede sustos.
Os
olhos mais felizes
são
os que choraram emoções vividas.
As
memórias só são memórias
para
quem não protelou,
para
quem entendeu cada segundo de vida
como
um instante irrepetível e inalienável.
O
tempo não perdoa
quem
nada faz dele.
sábado, 31 de janeiro de 2015
Entrelinhas
Em todas as
palavras
Há um
silêncio
Um não-lido,
Um não-escrito
Um não-gritado
Que aos
poucos
A poesia
extravasa
Em forma
melódica
Às vezes
tórrida.
Em todo
gesto
Há um
não-demonstrado
Um “tente
adivinhar!”
Um “decifra-me
ou te ignoro”
A beleza de
certas coisas
Nasce do não
dito
Do não
expresso,
Que parece
feio ou grosseiro.
Aí é que
entra a poesia
Cantando o
que nunca se diz
Melodiando o que jamais se explica
Revirando as
vísceras das entrelinhas.
É isso o que
me faz
Amar a
poesia.
É isso o que
me motiva
A não
desistir dela:
Gritar as
entrelinhas.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
A Tolice e o Amor
Ao meu redor, todo o espaço inútil
de uma solidão sem sentido.
E um monstro patético abraça-me
enquanto se ri de minha credulidade no amor.
No peito um coração abatido,
consoante minh ‘alma atormentada.
Um querer ilegítimo e absolutamente
sedutor
Conduzira-me pela mão até a beira do
precipício.
Mas a tolice, inimiga de tantos,
é minha fiel escudeira e evitou-me a
queda.
A tolice e o amor, algemas irremovíveis
de meu espírito romântico.
Afinal, só se tem o direito de ser tão
tolo
quando se tem consciência da própria
tolice.
E isso eu tenho, embora não aprenda
nada
nem com a consciência nem com a
estultícia.
Faz muito calor na cidade,
Mas dentro de mim o sangue
parece correr gelado e amargo nas
veias.
O sol brilha radiante lá no céu.
Contudo, o teto do meu quarto
assemelha-se a um céu sem estrelas.
E sem redenção.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
O Amor
Brisa úmida,
saudosa alegria
dos dias vividos
ao lado de um alguém.
Cheiros, sabores, sons...
Suga minha memória
o buraco negro da solidão.
O sentimento que um dia
batizou-me no altar da paixão,
agora não passa de um desejo
irrealizável e tolo.
Desejo o arrebatamento.
Quero ausentar-me um pouco
desse mundo aceitável
que plasmei para mim mesmo.
Nesse momento, para o amor
sou uma equação que não fecha.
saudosa alegria
dos dias vividos
ao lado de um alguém.
Cheiros, sabores, sons...
Suga minha memória
o buraco negro da solidão.
O sentimento que um dia
batizou-me no altar da paixão,
agora não passa de um desejo
irrealizável e tolo.
Desejo o arrebatamento.
Quero ausentar-me um pouco
desse mundo aceitável
que plasmei para mim mesmo.
Nesse momento, para o amor
sou uma equação que não fecha.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Descompasso
Me olhas
mas não me vês.
Me ouves,
porém não me escutas.
Nada há que me peças
que eu não te tenha
oferecido antes.
Assim ficamos os dois:
incomunicáveis
em toda a nossa eloquência.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Laços e passos
Contrariando todas as previsões,
substituindo todas as reticências
por um ponto final desabado,
os caminhos incertos dessa vida
nos separaram lentamente.
E, embora o sabor de um passado
doce como maçã do amor mordida,
minha língua foi em busca de outros paladares.
Não obstante o cheiro de nossos suores misturados,
meus poros se abriram para a aproximação
de outra pele e de um perfume inédito.
Uma brisa soprada do norte,
teimosa e úmida como promessa de chuva de verão,
virou uma página a mais do livro da minha vida.
Minhas pernas rijas voltaram a caminhar,
meus lábios ensaiam sorriso tímido
e o coração, esse continua batendo firme.
substituindo todas as reticências
por um ponto final desabado,
os caminhos incertos dessa vida
nos separaram lentamente.
E, embora o sabor de um passado
doce como maçã do amor mordida,
minha língua foi em busca de outros paladares.
Não obstante o cheiro de nossos suores misturados,
meus poros se abriram para a aproximação
de outra pele e de um perfume inédito.
Uma brisa soprada do norte,
teimosa e úmida como promessa de chuva de verão,
virou uma página a mais do livro da minha vida.
Minhas pernas rijas voltaram a caminhar,
meus lábios ensaiam sorriso tímido
e o coração, esse continua batendo firme.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Minutos de Vida
Durante alguns minutos eternos,
pousei o olhar sobre os desenhos
curiosos do meu cobertor.
As paredes opacas do quarto
desejaram desabar sobre meu corpo
por que não pendurei nelas
nenhum quadro ou fotografia
Eu bem queria ter pendurado
um espelho daqueles de corpo inteiro.
Mas concluí que não suportaria
olhar-me morrendo dia após dia.
Algumas rugas nascendo,
uns indícios de cabelos brancos
e a constatação dolorida de que
estou vendendo meus anos bem barato.
Essa vida não é senão um morrer cotidiano,
lento e gradual, civilizado e heroico.
Um morrer lento e irreversível.
Onde o amor, onde o viço de outrora?
Cadê os sonhos, os ideais?
O vento voluptuoso da paixão, quando findou?
Que dor imbecil essa, de não poder girar
ao contrário a roda do tempo.
Meu rosto de moço era liso
e as lágrimas que nele escorriam
tinham razões tão tolas!
pousei o olhar sobre os desenhos
curiosos do meu cobertor.
As paredes opacas do quarto
desejaram desabar sobre meu corpo
por que não pendurei nelas
nenhum quadro ou fotografia
Eu bem queria ter pendurado
um espelho daqueles de corpo inteiro.
Mas concluí que não suportaria
olhar-me morrendo dia após dia.
Algumas rugas nascendo,
uns indícios de cabelos brancos
e a constatação dolorida de que
estou vendendo meus anos bem barato.
Essa vida não é senão um morrer cotidiano,
lento e gradual, civilizado e heroico.
Um morrer lento e irreversível.
Onde o amor, onde o viço de outrora?
Cadê os sonhos, os ideais?
O vento voluptuoso da paixão, quando findou?
Que dor imbecil essa, de não poder girar
ao contrário a roda do tempo.
Meu rosto de moço era liso
e as lágrimas que nele escorriam
tinham razões tão tolas!
domingo, 21 de abril de 2013
SEPARAÇÃO
Certo dia
chegará
em que,
tateando as paredes nuas
da sombria mansarda
do em que vives,
tua mão não
se deparará mais com a minha.
Um calafrio
inédito percorrerá teu corpo
ao te dares
conta de que não estarei sempre ali,
conforme
houvera te prometido tantas vezes,
quando eu
inda cria que seríamos um do outro pelos séculos.
As pontas
dos teus dedos finos
procurarão desesperadamente
enlaçar-se nos meus,
que terão se
ausentado definitivamente.
E ficarás
perdida nos labirintos que criastes para si.
Nesta hora,
se te sobrar um lampejo de lucidez,
refletirás e
concluirás que, em verdade, jamais estivemos juntos,
embora
andássemos em paralelo.
Sempre
estivemos distantes, por opção de um de nós, que não eu.
E perceberás
que, pouco a pouco, fizestes escolhas.
E que estas
escolhas é que me privaram da tua vida.
E nos
colocaram falando palavras dóceis,
de costas um
para o outro.
Eu estarei
longe, nesta hora.
Provavelmente
chorando a desdita
de ter
estacionado a minha vida
aguardando
que me alcançasses pelo caminho.
Estarei
apavorado, por certo, como estou agora.
Pois terei
tomado consciência
de que o
amor que a ti me manteve ligado
era canção
de uma nota só, melancólica e lúgubre.
Não mais
pedirei que me ames.
Tampouco que
compreendas meu amor.
Pois um amor
que necessita ser compreendido,
não merece
ser vivido.
Deste dia em
diante
saberás continuas
sozinha
e que eu
continuo sozinho.
Como sempre estivemos, em verdade.
domingo, 17 de março de 2013
O velho agricultor
No sopé de uma
montanha íngreme, um velho agricultor cultivava com dificuldade uma pequenina
propriedade rural. Com pouquíssimos recursos materiais e minguadas forças para o
duro trabalho do campo, só podia contar com o jovem filho e um cavalo, animal
forte e bom de arado.
Num amanhecer
em que a neblina densa confundia a vista, o pobre sitiante levantou-se para a
lida. Mas, quando foi buscar seu cavalo no pasto, notou que a porteira do sítio
ficara aberta durante a noite e o animal fugira.
Cabisbaixo e
pensativo, ele voltava para casa quando, um sitiante vizinho, observando
apoiado na cerca de arame, começou a dizer:
- Puxa vida! Que
desgraça foi lhe ocorrer, meu vizinho! Percebo que teu animal fugiu e não terás
agora como cultivar a terra adequadamente. Lamentável!
O pobre
sitiante redarguiu, serenamente:
- Bem, meu
caro vizinho, pode ser uma desgraça ou não... Só o tempo irá dizer, nada de
desespero.
Dizendo isso,
recolheu-se à sua casa e foi avisar a esposa e o filho do acontecido, sem
maiores lamentações, posto que era um homem muito confiante e centrado, não
obstante sua pouca cultura.
Por três dias
o velho agricultor e seu filho realizaram todas as suas tarefas com o mesmo
empenho de sempre, sem poder contar com o cavalo que desaparecera. Em nenhum
momento lamentaram ou desanimaram da lida, embora seus corpos estivessem moídos
pelo esforço dobrado.
Depois desse
período, em que a porteira do sítio permanecera aberta, amanheceram ele, a
esposa e o filho, ouvindo ruídos e relinchos diversos dentro dos limites do
sítio, bem próximo ao quintal da casinha simples que habitavam.
Ao abir a
porta do casebre, perceberam que o cavalo retornara para a propriedade,
acompanhado de mais cinco animais robustos, selvagens, certamente oriundos das
matas por onde andara.
O agricultor e
seu filho rapidamente improvisaram um estábulo, onde prenderam os cavalos e
lhes deram água e comida.
O vizinho do
sítio ao lado não tardou a bisbilhotar o que se passava ali e, surpreso com a
tropa de que dispunha o, até então, pobre sitiante. E foi logo gabando:
- Minha nossa,
mas que sorte tens, meu bom vizinho! Não só recuperaste teu cavalo, mas agora
tens mais cinco deles. E ainda mais novos e mais robustos! Poderás até mesmo
ficar com apenas mais um ou dois e vender os outros por boa quantia em dinheiro
e comprar maquinários modernos para a lavoura. Assim irás enriquecer!
Ponderado e
discreto, respondeu o pobre agricultor:
- Pode ser
sorte ou desgraça, meu estimado vizinho. Só o tempo irá dizer.
Na tarde do
mesmo dia, seu jovem filho começou a montar os cavalos selvagens, afim de
adestrá-los para a lida. Sem isso, não passariam de animais brutos, que
poderiam até causar danos à propriedade e não serviriam ao trabalho exigente da
lavoura.
Cada montaria
que o moço fazia era perigosíssima, pois os animais não aceitavam ser domados e
reagiam com furor, pulando, empinando e relinchando muito. Bem no finalzinho da
tarde, aconteceu um acidente. Um cavalo derrubou ao chão o filho do sitiante e
pisou sua perna com violência, fraturando-a em dois pontos.
O vizinho
falastrão, que assistia à doma dos anmais, logo levou às mãos à cabeça, como se
ele mesmo fora acometido de imensa dor pelas fraturas do jovem. Bradou:
- Meu Deus!
Que desdita veio agora a te atingir, meu amigo! É chegada a época do plantio e
teu filho ficará longas semanas acamado, sem poder ajudar-te nas tarefas do
sítio. De que adianta teres uma tropa dos melhores e mais dóceis cavalos, se
não tens teu filho para conduzi-los e tuas poucas forças de velho não te
ajudam? Sem dúvida, estais desgraçado! Não poderás plantar a lavoura e, sendo
assim, não terás colheita!
Enquanto
socorria seu filho e tratava de imobilizar a perna fraturada, com serenidade e
sem nenhum traço de desespero, o idoso respondeu educadamente ao seu
intrometido vizinho:
- Posso estar
desgraçado ou não, bom amigo. Vamos aguardar os acontecimentos e cuidar da
perna do garoto. Tudo se ajeitará, tenho certeza.
E assim
recolheram-se para o casebre, onde o filho passaria dias sofrendo com muitas
dores e afastado do trabalho.
Durante o
período de recuperação lenta do jovem, o país em que viviam entrou em guerra
contra uma nação distante. Todos os jovens da sua faixa etária foram alistados
ao exército compulsoriamente. Os generais ordenaram que se visitassem cada
canto do país e arrancassem os jovens de suas famílias para irem à refrega,
defenderem os interesses da nação na guerra, que prometia ser longa e penosa.
Quando os
responsáveis pelo alistamento visitaram a região em que o jovem agricultor
vivia, ele foi poupado, posto que não houvesse possibilidade sequer de caminhar
com a perna fraturada. De maneira alguma seria útil no front. Os filhos do vizinho,
no entanto, que eram três jovens sadios e fortes foram todos arrastados pela
onda bélica.
Não tendo mais
os filhos para cuidar da propriedade enquanto ele mesmo cuidava da vida dos
vizinhos, não mais teve tempo de se ocupar da vida alheia.
A guerra foi
mesmo longa e sangrenta. Inúmeros navios haviam partido do país, lotados com os
jovens soldados, muitos dos quais jamais retornariam.
O jovem
agricultor, ainda acamado, todas as tardes acompanhava os noticiários por meio
de um singelo radio a pilha, junto com seus pais. A cada tarde, ouvia notícias
terríveis de mais e mais baixas nas tropas de seu país.
E todos os dias
se colocavam em oração. Pediam a Deus pelo fim do confronto, suplicavam socorro espiritual às centenas de moços que
desencarnavam pelejando pela nação e não deixavam de agradecer por aquele
incidente que prostrara o jovem por semanas, poupando-o do conflito e
possivelmente da morte.
A grande lição desta parábola, que não é de
minha autoria, mas que ouvi há tempos e da qual desconheço o autor, é que
devemos ter sempre serenidade, resignação e paciência diante de todos os
acontecimentos da vida, sejam eles alegres ou tristes, positivos ou
aparentemente negativos. Pois aquilo que à primeira vista pode ser um mal sem
remédio, pode ser a salvação de uma situação verdadeiramente trágica. Enquanto
que aquilo que pode nos parecer a maior alegria de toda uma existência pode
acabar nos provocando danos dificílimos de ser reparados, seja moralmente,
moralmente ou à nossa integridade física.
Dizia Paulo Apóstolo: “Todas as coisas
cooperam para o bem dos que amam a Deus” e “Em tudo dai graças”
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
FELIZ TRANSFORMAÇÃO
Aproxima-se
o réveillon.
Um
dezembro meio calado afivela suas malas já com certa pressa. Dentro delas, bem
acomodadas, todas as lembranças e histórias, alegrias e tristezas, benesses e
agruras dos últimos trezentos e sessenta e tantos dias.
O
ano de número dois mil e doze, que há aproximadamente trezentos e sessenta e poucos
dias nós esperávamos com ansiedade e expectativa, agora vai saindo de cena,
cansado, surrado, por alguns até amaldiçoado.
E
nós? Como nós ficamos?
Simples:
nós ficamos aqui, preparando os caminhos para um outro ano, jurando uns aos
outros e tentando nos convencer a nós mesmos de que será um ano maravilhoso,
repleto daqueles votos que repetimos incansavelmente durante os intermináveis
abraços e apertos de mão que distribuímos entre o dia de Natal e o trinta e um
de dezembro. Muita paz, saúde, prosperidade, dinheiro no bolso etc. ... Tenho a
sensação de que cada um de nós, ao repetir a cantilena de votos de um novo ano
melhor, na verdade, intimamente ficamos tentando nos convencer de que, por
alguma mágica maluca, a mudança do calendário por si só há de melhorar o mundo
e as pessoas – desde que eu mesmo não esteja incluído nesse grupo que necessita
de melhoria, afinal, são os outros que têm que melhorar para tornar minha vida
mais palatável.
De
minha parte, mesmo antes de desenvolver o hábito de refletir mais profundamente
sobre a vida, eu já nutria certa desconfiança em relação a essa crença de que
mudando o número do calendário, há uma chance excepcional de que tudo a minha
volta se transforme para melhor e que a vida passe a sorrir mais para mim.
Esse
texto mereceria aqui um parênteses para falar do talento e das teses dos numerólogos,
tarólogos, astrólogos e mais alguns “ólogos” que defendem suas teses sobre
influência dos números ou dos astros ou seja lá o que for sobre o nosso destino.
Mas, confesso duas inconveniências: primeiro, que, na tentativa de explicar
tais teses, esse parênteses ficaria longo demais; segundo, que eu não creio nem
um pouquinho nessas teorias. E, como o texto é meu, posso me conceder a
prerrogativa de não dar espaço ao que eu não creio. Mesmo sob pena de alguns
dos meus leitores se sentirem ofendidos em suas crenças e abandonarem aqui a
leitura.
O
âmago da questão – não vou mais fazer rodeios – é que, ano após ano, temos a sensação
de que tudo à nossa volta se repete, remetendo-nos à velha máxima contida no
capítulo um do Livro do Eclesiastes: “O
que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que não
há nada de novo debaixo do sol”.
Qualquer
um que deseje constatar modernamente esse estado de coisas, poderá fazê-lo
facilmente realizando uma pesquisa sobre os arquivos de noticiários de anos
anteriores, hoje facilmente encontrados numa rápida busca pela internet. Encontrará
lá textos, áudios ou vídeos que praticamente, dezembro após dezembro, se
repetem sobre violência, acidentes de trânsito, corrupção, desastres naturais,
crises nos mais diversos setores da administração pública, impostos, custo de
vida, crescimento econômico etc.
Quer
um exemplo de notícia que a cada ano está na pauta dos noticiários, com as
mesmas palavras? Aí está: “Bancos anunciam lucros recordes no ano de....” Pode
preencher com o ano que desejar e você não estará mentindo. E nós, imensa
maioria de brasileiros – os que não pertencemos à classe A – nos indignamos ao lembrar
o quão minguado é nosso ganho, quantas taxas pagamos para manter nossas contas
bancárias e quão pesados juros pagamos a esse sistema bancário para
conseguirmos comprar uma casa ou um carrinho novo. Nessa hora, amaldiçoamos os
ricos banqueiros, fazemos votos de nunca mais financiar nada. Os mais radicais
prometem-se a si mesmos fechar a conta no banco e isso e aquilo... Promessas,
nada mais. No ano seguinte, estaremos ouvindo a mesma notícia, com a mesma
indignação e fazendo as mesmas promessas.
Esse
exemplo do lucro dos bancos é apenas para ilustrar o fato de que em tudo nas
nossas vidas, entra ano e sai ano, fazemos promessas de mudanças, votos de
transformação e vamos repetindo à exaustão um modelo de vida e um corpo de
crenças e ideologias que nos mantém atrelados a nossos pequenos vícios, às
pequeninas imperfeições e preguiças que, somados, travam nosso progresso
pessoal e assim esmaece o brilho dos votos que nos fazemos uns aos outros sob os
fogos de infinitas noites de réveillon.
Portanto,
o que nós precisamos, mais do que um novo calendário, é de novas atitudes. Mais
do que promessas regadas a champanhe e sopa de lentilhas, necessitamos é de uma
decisão firme e coerente em prol da nossa transformação pessoal, da qual
nascerá a transformação da sociedade.
Podem
vir 2013, 2014, 2015. Se esses novos números nos encontrarem refratários às
mudanças, hábeis apenas em pronunciar belos – e estéreis – presságios aos
outros, o país nunca será aquele que sonhamos.
Por
isso, eu desejo a você que está lendo esse texto, não saúde ou prosperidade, ou
dinheiro no bolso. Desejo a você, atitude.
Desejo
a você que pare de olhar para o calendário e volte os seus olhos para o seu
interior, num profundo e sério exame de consciência, a fim de detectar onde
está a necessidade de transformação para que você passe a ser tudo aquilo de
bom que deseja aos outros, seja em janeiro, fevereiro ou setembro, seja que ano
for.
FELIZ TRANSFORMAÇÃO!
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Você vem
Eu não te conheço,
não sei quais são seus planos,
não ouvi sua voz nem sei
o cheiro do seu perfume.
Mas sei que você vem,
com seus risos e discursos,
com seus prantos e sonhos.
Vem com uma vida toda sua.
Eu te receberei em meu quintal,
onde cantam passarinhos,
onde gotas de chuva já lavaram
meus rastros e minhas lágrimas.
Meu quintal é enorme,
pedaço cimentado de mim mesmo,
onde lânguidos raios de sol se deitam
todas as manhãs.
Lá tem uma cadeira de balanço,
uma mesinha redonda de vime.
Sobre ela uma taça de licor de jabuticaba.
As paredes são de um verde cansado e pálido.
Quando você finalmente vier,
lá terá também alegria.
não sei quais são seus planos,
não ouvi sua voz nem sei
o cheiro do seu perfume.
Mas sei que você vem,
com seus risos e discursos,
com seus prantos e sonhos.
Vem com uma vida toda sua.
Eu te receberei em meu quintal,
onde cantam passarinhos,
onde gotas de chuva já lavaram
meus rastros e minhas lágrimas.
Meu quintal é enorme,
pedaço cimentado de mim mesmo,
onde lânguidos raios de sol se deitam
todas as manhãs.
Lá tem uma cadeira de balanço,
uma mesinha redonda de vime.
Sobre ela uma taça de licor de jabuticaba.
As paredes são de um verde cansado e pálido.
Quando você finalmente vier,
lá terá também alegria.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
MEU ANIVERSÁRIO
Contar
os anos, os meses, os dias. Talvez ir além e tentar descobrir quantas vezes o
meu coração bateu nesses trinta e oito anos de atividade biológica de meu corpo
físico.
Enfim,
há tantos números que possam dar uma idéia mais ou menos aproximada do que
significou e significa ser Eu imerso nessa realidade chamada vida física.
Mas
nenhum exercício de álgebra jamais poderá calcular as alegrias, as tristezas,
as conquistas e derrotas, as decepções e surpresas, as lágrimas e os sorrisos.
Por um motivo muito simples: ser não é nada matemático, não há nada de exato e
plenamente mensurável em tudo o que vivi nesses trinta e oito longos anos.
Não
vou fazer um balanço, primeiramente por que balanço dá aquela sensação de
encerramento de atividades, de “fechamento de firma”. Quem faz balanço
normalmente busca apurar algum ganho ou detectar perdas, por o lucro no bolso e
partir. E eu, definitivamente, não estou nem um pouco a fim de partir ainda.
Não
dizem que antes de morrer um homem precisa ter um filho, escrever um livro e
plantar uma árvore? Pois eu ainda estou devendo à vida o livro e o filho. Portanto,
nada de balanço ainda. Nada de encerramento de atividades.
Em
segundo lugar, não vou fazer balanço porque isso implica ficar remexendo coisas
velhas, olhando demais para o passado e julgando-me a mim mesmo e às situações
pelas quais passei. Taí outra coisa que não estou disposto a fazer: ficar
olhando para trás. Meu objetivo é olhar cada vez mais para frente, desbravar
cada novo dia que o meu Pai me der de presente.
Claro
que eu jamais desprezo as experiências do ontem. Elas forjaram muito do meu caráter
e me norteiam, sobretudo para que eu não repita erros já cometidos. Afinal,
está na hora de cometer erros novos! Mas tenho uma opinião sobre o passado: se
ele não pode ser alterado, posso escolher o que dele me aproveita, sem
demorar-me muito na sua avaliação. Basta uma olhada rápida, pinçar alguma coisa
que funcionou lá e pronto!, voltemos ao presente.
Portanto,
depois desses trinta e oito anos em que eu estou Ronaldo Silva, só uma coisa me
interessa: planejar com responsabilidade os próximos trinta e oito, caminhar
firme e alegre na direção de todas as experiências que me esperam em cada
janeiro, fevereiro, março ou dezembro que me aguardam pela frente.
Mas,
e se eles não chegarem? Se amanhã essa história se interromper?
Aí,
vou contar um segredinho pra vocês: não há interrupção! A vida simplesmente
segue, seja aqui, seja do outro lado.
Hoje
estou aqui, estou Ronaldo. Amanhã, posso estar noutra família, noutro país, noutro
planeta, noutra galáxia. Apenas saibam que eu estarei, sempre, em algum lugar,
completando trinta e oito anos infinitas vezes, e sempre olhando para frente.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
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