Meu pai foi Ruy.
Meu Ruy foi lavrador.
Meu pai, Ruy, foi bom.
fui capaz de enxergar sua bondade.
Reencontrei Angélica.
Não de verdade, não de carne e osso.
Reencontrei sua foto.
Seus lábios carnudos
trouxeram à tona
a memória de um beijo
roubado no banco do carro
na penumbra de uma noite louca.
Seu olhar lascivo
parecia olhar-me diretamente
pedindo o amor
que nem sei por qual motivo
jamais se concretizou.
Fui correndo procurá-la
numa rede social.
Encontrei-a casada
com ares de felicidade.
Desisti de mais um hipotético amor.
Entre o riso e o choro
cabe todo o universo.
Cabem cinquenta mil tons
de emoções, gozos e dores.
Entre o riso e o choro
cabe a ternura do berço;
cabe a angústia do esquife.
Entre o riso e o choro
cabem as acnes do adolescente;
cabem as rugas do idoso.
Entre o riso e o choro
cabe a festa das núpcias;
cabe a audiência do divórcio.
Entre o riso e o choro
cabem os vigorosos goles da cachaça;
cabem os amargos remédios da cirrose.
Entre o riso e o choro
cabem os amorosos conselhos dos pais;
cabem as inconsequências da teimosia dos filhos.
Entre o riso e o choro
cabem os abraços dos amigos;
cabem as porradas dos inimigos.
Entre o riso e o choro
cabem os amores aconchegantes e sóbrios;
cabem as aventuras tórridas e loucas.
Entre o riso e o choro
cabem as orientações do professor;
cabem as broncas homéricas do chefe.
Entre o riso e o choro
cabem todas as nossas incoerências;
cabem todas as nossas lógicas.
Entre o riso e o choro
cabem as noites de farra;
cabem os dias de luta.
Entre o riso e o choro
agem as mãos alvissareiras do obstetra;
agem as mãos funestas do legista.
Entre o riso e o choro
cabe a meiguice da prece;
cabe a aspereza do palavrão.
Entre o riso e o choro
cabe o enlevo do beijo;
cabe a secura do tapa.
Entre o riso e o choro
cabe a primavera de um "eu te amo";
cabe o outono de um "desapareça da minha frente".
Entre o riso e o choro
cabem os sinos da fé contrita;
cabe a inflexão do ateísmo declarado.
Entre o riso e o choro
cabem o lar e o boteco;
cabem a igreja e o meretrício;
cabem a ordem e a anarquia;
cabem o grito e o silêncio;
cabem a dor e o prazer;
cabem o tesão e a impotência.
Entre o riso e o choro
cabem o eterno e o finito;
cabem a sabedoria e a estupidez;
cabem a poesia e a prosa;
cabem o sagrado e o profano.
Enfim...
Entre o riso e o choro
cabe a esperança de TUDO,
tanto quanto o abismo do NADA.
Sujeito que à minha porta bate,
envolto em andrajos encardidos.
Peito arfante encharcado de esperança.
Pele ressequida pelo sol inclemente.
No estômago vazio, a acidez da expectativa.
Acumula horas (talvez dias) de funda fome.
Pernas vacilantes, ombros pensos, boca seca.
Diante dos meus muros, apequenado em sua miséria,
aguarda que uma voz suave surja do interfone.
Adiando afazeres frugais de um domingo outonal,
examino o monitor, retiro o fone do gancho,
ensaiando, para cada possível solicitação,
uma resposta impessoal, fria e repelente.
"Senhor, teria algo pra eu comer?"
"Senhor, um pão amanhecido, que seja?"
"Senhor, tem recicláveis?"
"Senhor, um copo d'água, por favor?"
Vergonhosa é a rapidez com que,
escudado pelo aparelho eletrônico, livro-me dele.
Livrando-me, assim, da melhor chance
que o domingo me ofereceu para ser bom e útil.
Muito mais que muros, cercas e câmeras,
O que nos separa é um "não sei quê".
Algo que minha palavra não explica,
que minha inteligência não examina,
que minha consciência insiste em anestesiar.
Enfim, ele se vai, um tanto mais abatido,
encontrar-se com o próximo interfone, sonhando piedade.
Mergulho novamente em meu domingo classe-média.
Quando, enfim, chega a noite, dirijo até o templo espírita.
Lá, vou pregar o Evangelho.
O dia finda e um sol sem graça e exausto se deixa devorar pelo horizonte.
Geme minh'alma desde há muito
premida , torturada e abusada
em todas as suas dobras e desdobras
pelo mais temível dos algozes: a solidão.
Em vão vasculho memórias -
até mesmo de vidas outrora vividas -
que revelem tão cruel crime possa eu ter perpetrado
a ponto de, na infausta hora presente, ser condenado
ao suplício do não-amar e não ser querido.
Com que habilidade terei eu me doutorado,
nas encarnações pretéritas,
na controversa arte de desperdiçar amigos,
tanto quanto na incompetência para cultivar amores?
Dia após dia, esforço-me por aprender a lidar
com esse maldito silêncio em casa.
Silêncio de não ouvir esposa dizendo "meu bem"
nem crianças vivazes gritando "papai!"
Sejam quentes, frios ou chuvosos os dias,
sigo vitimado pela sede brutal, jamais saciada
por sequer um afeto sincero.
Numa sinistra e extenuante rotina,
assisto calmamente meus dias se esvaírem,
e vou me resignando em ver minha carcaça envelhecer,
meus cabelos branquearem e a virilidade titubear.
Resta saber quanto será a duração desta pena.