domingo, 9 de agosto de 2026

Ruy

Meu pai era Ruy.
Meu pai foi Ruy.
Meu Ruy foi lavrador.
Meu pai, Ruy, foi bom.

Confesso: nem sempre eu, filho de Ruy,
fui capaz de enxergar sua bondade.
Talvez isso seja próprio do filho
soberbo, metido a sabichão.

Mas ah! Sábio mesmo era o Ruy.
Daqueles sábios que não desperdiçam
palavras nem gestos à toa.
Sabedoria de matuto, homem do campo.

A casa de Ruy ficou gigante agora.
Perdido nela eu, filho de Ruy que sou,
mergulho em memórias - recentes e antigas.
Casa que já não tem Ruy, silenciosa, empoeirada e triste.

Filho de Ruy, adentro seu quarto
guardado pela imagem de Nossa Senhora.
"Bênça, pai!" Cadê a resposta??

Cadê o tec-tec da bengala tocando o piso?
Está vazio aquele cantinho do sofá
onde Ruy rezava a consagração,
acompanhava os terços e as missas.

Seus instrumentos estão pela casa, inúteis agora.
o pedalinho dos seus exercícios na varanda,
a cadeira plástica que usava pra sentar à calçada
pra observar o movimento da rua.

Seu lugar à mesa da cozinha.
O jardim que ele regava nas tardes de sol.
O criado mudo, onde repousa o rosário.
As sandálias posicionadas ao lado da cama.

Creio que Ruy, meu velho pai, apreciava
um certo silêncio em casa.
Silêncio que eu, filho de Ruy, custo a suportar agora,
nos primeiros arrastados dias de sua ausência.

Nos dias duros, pressentindo seu ocaso,
segurava firme a minha mão, apoio para os deslocamentos.
Um olhar assustado diante da limitação física.
"Será que agora é a morte, meu filho?".

Momento em que Ruy me deixou sem palavras,
imerso num esforço indescritível
para conter as lágrimas.

Meu pai, que foi Ruy, se foi...


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Medo

    Recentemente - há coisa de pouco mais de um ano e meio - descobri dentro de mim um monstro mais inquietantemente assustador do que qualquer outro que eu já tenha enfrentado nesse meio século de vida: o medo.
    Você me perguntará: mas, Ronaldo, em cinquenta anos de vida você nunca tinha experimentado o medo? Terá você vivido esse tempo todo como um oásis de destemor, uma ilha de coragem incorruptível?
    Desde já, afirmo: não. Em toda a existência até aqui, sempre lidei com diversas facetas do medo, tal qual (creio eu) todo ser encarnado na terra. Desde os medos mais inusitados da adolescência, como o pavor que eu tinha de ficar calvo ou de não ter barba, até aqueles que eu reputo como presentes em todo coração e toda mente pulsante sobre a face da Terra: o medo de perder minha mãe, o medo de não conseguir fazer face às despesas materiais para sobreviver com dignidade, etc.
    Contudo, o medo que eu assustadoramente encontrei agora dentro de mim, é de alguma sorte diferente. Ele parece ser um agrupamento de uma série de medos, mais ou menos explicáveis, mais ou menos justificáveis.
    Por vezes, acordo no meio da madrugada. Na verdade, isso sempre me aconteceu. Desde muito jovem meu sono sempre foi repicado, entremeado de despertamentos repetidos. Às vezes um, às vezes dois ou mais, dependendo de fatores que eu jamais identifiquei, apenas atribuindo ao imponderável. Esse fenômeno dos despertamentos no meio da noite ganharam agora um ingrediente novo. Se mais jovem eu simplesmente ia ao banheiro e depois corria a tomar um copo d'água, hoje despertar me paralisa em pensamentos intrusivos, frequentemente ligados a medos: da solidão, da velhice, de enfermidades, de incapacidade financeira etc.
    Nesse cenário, custo a reestabelecer o sono, lidando com uma mente incontrolável. Não raro, surgem manifestações físicas igualmente perturbadoras e incontroláveis: tremores, sudorese, cólicas, tontura, dores que parecem brotar subitamente em órgãos do corpo, sobretudo na coluna e nos rins.
    De minha já longa e consistente convivência com os postulados espíritas, procuro haurir equilíbrio e racionalidade - como é patente nas obras básicas da Doutrina  - para reverter o quadro. Tento ler o Evangelho, elevar uma prece, manipular meu padrão mental, buscando sintonias espirituais de espíritos de luz que me tragam notícias elevadas dos planos divinos. Às vezes funciona. Outras tantas vezes, nem isso.
    É então que entro numa espécie de prostração moral, que é o sentimento de alguém que sempre foi lúcido e absolutamente corajoso diante dos desafios da vida e que agora se sente um menino acuado.
    Prestes a completar cinquenta e um anos de idade, diagnostico-me a mim mesmo como um homem que fracassou em praticamente todas as empreitadas que assumiu.
    Comecei a vida, muito pequeno ainda, com a obsessão de me tornar padre católico. Moldei toda a minha adolescência impregnado por essa ideia. A ponto de dar as costas, por exemplo, a todas as possibilidades de paqueras e namoros da juventude, em virtude da seriedade da exigência de celibato imposta ao cargo pretendido. Decidi que não queria me envolver com nenhuma das garotas da minha juventude, sob pena de partir para o seminário com o coração decidido.
    Aos dezessete anos, fui admitido ao seminário. Primeiro pela minha diocese, depois, migrando para a Ordem Franciscana, onde em 1997, já cheio de conflitos internos, professei votos e me tornei frei em estágio inicial.
    Não demorou muito para que eu me sentisse vazio, doutrinariamente insatisfeito e afetivamente perdido, querendo namorar, beijar, ter uma vida sexual. Desejos ardentes me consumiam diante das belas mulheres que povoavam meu mundo católico. Ao mesmo tempo, me tornei um feroz questionador das doutrinas católicas, amarradas por dogmas inquestionáveis e que me soavam - muitos - irracionais.
    Enamorei-me de uma mulher quinze anos mais velha que eu, separada da primeira união e viúva do segundo companheiro. E o que muitos classificaram como um desastre, pra mim foi uma luz no fim do túnel, à medida em que catapultou o rompimento dos votos franciscanos e a volta para a vida civil.
    Desde então, a montanha russa da vida não me proporcionou sequer um minuto sem sobressaltos. Descobri-me um homem carinhoso, romântico, sexualmente sedento - não obstante inexperiente até os vinte e três anos de idade.
    O relacionamento que me tirou da vida franciscana teve vida curta, por razões que não necessitam ser mencionadas.
    Depois dele, vivi o que, na vida de um ex seminarista romântico e tolo, parecia um sonho. Apaixonei-me desgraçadamente por uma linda jovem a quem me dediquei como um cão. Essa com idade próxima à minha, porém com uma considerável experiência em relacionamentos. E foi ela que me desferiu o golpe mais duro e imprevisível: trocou-me por um rapaz muito mais atraente e, para ficar com ele, colocou fim à gravidez do nosso filho que ela carregava no ventre. O traço ainda mais cruel foi ela ter me confessado tamanho desatino num Dia dos Pais.
    Seguiram-se três anos de profunda depressão, de absoluta descrença nas relações. Comecei a vencer essa fase quando, concomitantemente, conheci uma mulher digna, bela, carinhosa e também descobri a Doutrina Espírita.
    O relacionamento com essa mulher cheia de predicados eu mesmo destruí por minha imaturidade e insegurança.
    A minha relação com a Doutrina Espírita, essa sim, segue norteando minha vida, fundamentando minhas mais sólidas convicções, confortando-me diante de revezes sucessivos, como a dura partida de minha amada mãe para a dimensão espiritual. Ainda que minha permanência no movimento espírita também tenha passado por turbulências e algumas reviravoltas.
    Afetivamente, venho vindo de desastre em desastre. às vezes magoando e ferindo, outras vezes sendo ferido e magoado. Até aí, nada de surpreendente.
    O que incomoda, de fato, é que nos últimos anos, de certa forma desisti de amar e ser amado. Crente de que sou um sujeito desinteressante no que diz respeito às expectativas externadas pelas mulheres dos dias atuais, afastei-me completamente da ideia de conseguir significar alguma coisa na vida de alguém.
    Entreguei-me a uma relação de amor e ódio com a senhora chamada Solidão. Cultivei-a nos últimos anos vivendo sozinho, ao mesmo tempo em que me apavoro em ver os anos passando e eu absolutamente incompetente no campo afetivo.
    Tendo passado recentemente por problemas de saúde que, inclusive me obrigaram a uma cirurgia, o outro medo permanente é o de envelhecer, além solitário, sem saúde física.
    Para finalizar esse texto, que já começa a ficar enfadonho, revelo o enredo do grande medo que me toma de assalto bem no meio da noite e bem no meio da vida: o medo de ter que enfrentar tudo o que não fui capaz de realizar.
    Às portas dos cinquenta e um anos de idade, não tive competência para constituir família, tampouco para estruturar uma vida financeira que me dê qualquer segurança. Erigi dentro de mim mesmo o espectro de um homem solitário, em certa medida anti-social, descrente do amor.
    Tem dias que simplesmente me sinto como um autômato que levanta de manhã, corre disciplinadamente atrás de dinheiro para sobreviver e fica assistindo os dias se esvaírem, sem perspectivas maiores ou anseios relevantes.
    Somado a isso, uma percepção muito viva de que sou absolutamente irrelevante para as pessoas que me cercam. A ideia de que eu estar aqui ou não estar não faz a menor diferença nas suas vidas.
    Talvez seja esse o pano de fundo maior dos meus medos: eu jamais ter feito a diferença na vida de alguém de fato.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Angélica

 Reencontrei Angélica.

Não de verdade, não de carne e osso.

Reencontrei sua foto.


Seus lábios carnudos

trouxeram à tona

a memória de um beijo

roubado no banco do carro

na penumbra de uma noite louca.


Seu olhar lascivo

parecia olhar-me diretamente

pedindo o amor

que nem sei por qual motivo

jamais se concretizou.


Fui correndo procurá-la

numa rede social.

Encontrei-a casada

com ares de felicidade.


Desisti de mais um hipotético amor.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

MORREREMOS

Tudo morre.
Todos morrem.
Estupidamente.
Inapelavelmente.

Com planos ou sem eles
morre-se, inexoravelmente.
Com destino ou a esmo
morre-se abruptamente.

Morrerei eu, morrerás tu.
Morreremos nós sem piedade.
Morreremos de mentira ou de verdade.
Anônimos ou celebridades, morreremos.

Não há indivíduo que não desça ao túmulo
ou transforme-se um punhado de cinzas.
Todos teremos nosso último suspiro.
Todos vitrificaremos o olhar um dia.

Um infarto, um AVC, um câncer, o diabetes.
Acidente de carro, coice de mula, queda de escada.
Atropelamento, incêndio, enchente, frio ou calor extremo.
Centenas de pretextos: morte certa.

Ficarão nossos bens, o cão de estimação,
aquele cortador de unha predileto.
Ficarão histórias, anedotas, vexames,
dívidas, vinhos, afetos... Ficarão.

Durante duas, talvez três semanas
ainda seremos assunto na barbearia.
Numa roda de conversa dos enfermeiros da UTI
provavelmente por alguns dias.

Por um ou dois anos, porta-retratos cafonas
sobreviverão empoeirando sobre um móvel da sala.
Familiares olharão circunspectos para nossos sorrisos extintos.
Nos mencionarão com distinção no Dia dos Pais, das Mães, no Natal
enquanto alguém assume nosso lugar à mesa do almoço.

Meia década depois, casualmente, um sobrinho
encontrar-nos-á ao folhear um álbum amarelado
esquecido numa gaveta da cômoda, entre lenços sem uso,
ou numa coleção de fotos de rede social.
"Mamãe, quem era este(a)?", perguntará.

Neste momento a morte não será mais
uma coisa aparentemente adiável ou reversível.
Teremos morrido definitivamente.
Afinal, sequer memória de meia dúzia seremos mais.

Ponto final. Absolutamente final!!

terça-feira, 10 de setembro de 2024

ENTRE O RISO E O CHORO

 Entre o riso e o choro

cabe todo o universo.

Cabem cinquenta mil tons

de emoções, gozos e dores.


Entre o riso e o choro

cabe a ternura do berço;

cabe a angústia do esquife.


Entre o riso e o choro

cabem as acnes do adolescente;

cabem as rugas do idoso.


Entre o riso e o choro

cabe a festa das núpcias;

cabe a audiência do divórcio.


Entre o riso e o choro

cabem os vigorosos goles da cachaça;

cabem os amargos remédios da cirrose.


Entre o riso e o choro

cabem os amorosos conselhos dos pais;

cabem as inconsequências da teimosia dos filhos.


Entre o riso e o choro

cabem os abraços dos amigos;

cabem as porradas dos inimigos.


Entre o riso e o choro

cabem os amores aconchegantes e sóbrios;

cabem as aventuras tórridas e loucas.


Entre o riso e o choro

cabem as orientações do professor;

cabem as broncas homéricas do chefe.


Entre o riso e o choro

cabem todas as nossas incoerências;

cabem todas as nossas lógicas.


Entre o riso e o choro

cabem as noites de farra;

cabem os dias de luta.


Entre o riso e o choro

agem as mãos alvissareiras do obstetra;

agem as mãos funestas do legista.


Entre o riso e o choro

cabe a meiguice da prece;

cabe a aspereza do palavrão.


Entre o riso e o choro

cabe o enlevo do beijo;

cabe a secura do tapa.


Entre o riso e o choro

cabe a primavera de um "eu te amo";

cabe o outono de um "desapareça da minha frente".


Entre o riso e o choro

cabem os sinos da fé contrita;

cabe a inflexão do ateísmo declarado.


Entre o riso e o choro

cabem o lar e o boteco;

cabem a igreja e o meretrício;

cabem a ordem e a anarquia;

cabem o grito e o silêncio;

cabem a dor e o prazer;

cabem o tesão e a impotência.


Entre o riso e o choro

cabem o eterno e o finito;

cabem a sabedoria e a estupidez;

cabem a poesia e a prosa;

cabem o sagrado e o profano.


Enfim...

Entre o riso e o choro

cabe a esperança de TUDO,

tanto quanto o abismo do NADA.



segunda-feira, 5 de junho de 2023

Visita de domingo

 Sujeito que à minha porta bate,

envolto em andrajos encardidos.

Peito arfante encharcado de esperança.

Pele ressequida pelo sol inclemente.


No estômago vazio, a acidez da expectativa.

Acumula horas (talvez dias) de funda fome.

Pernas vacilantes, ombros pensos, boca seca.

Diante dos meus muros, apequenado em sua miséria,

aguarda que uma voz suave surja do interfone.


Adiando afazeres frugais de um domingo outonal,

examino o monitor, retiro o fone do gancho,

ensaiando, para cada possível solicitação,

uma resposta impessoal, fria e repelente.


"Senhor, teria algo pra eu comer?"

"Senhor, um pão amanhecido, que seja?"

"Senhor, tem recicláveis?"

"Senhor, um copo d'água, por favor?"


Vergonhosa é a rapidez com que,

escudado pelo aparelho eletrônico, livro-me dele.

Livrando-me, assim, da melhor chance

que o domingo me ofereceu para ser bom e útil.


Muito mais que muros, cercas e câmeras,

O que nos separa é um "não sei quê".

Algo que minha palavra não explica,

que minha inteligência não examina,

que minha consciência insiste em anestesiar.


Enfim, ele se vai, um tanto mais abatido,

encontrar-se com o próximo interfone, sonhando piedade.


Mergulho novamente em meu domingo classe-média.

Quando, enfim, chega a noite, dirijo até o templo espírita.

Lá, vou pregar o Evangelho.

sábado, 11 de junho de 2022

Casa Vazia

O dia finda e um sol sem graça e exausto se deixa devorar pelo horizonte.

Honradamente retorno à casa que igualmente me devorará, não menos afadigado.
Giro a chave da porta, repetindo o gesto autômato de todas as tardes.
Adentro respeitosamente o imóvel que deveria abrigar um lar, mas onde
desde alguns anos somente reside a minha solidão.
A sala reserva-me o não-beijo apaixonado da esposa.
Lá do fundo do quintal me vem o absurdo silêncio da não-voz
dos filhos amados chamando de papai.
Seus não-abraços poupam-me – de uma forma que eu não desejaria –
os ossos já envelhecendo e as carnes, cansadas da lida do dia.
Olho em derredor. Tudo inalterado. Tudo exatamente disposto
tal como eu deixara pela manhã ao sair. Nenhuma intervenção,
sequer um objeto arredado do lugar onde foi posto por mim há séculos.
Sinal inequívoco de que absolutamente ninguém mexe na minha casa
nem na minha vida desde um tempo que nem consigo mais mensurar.
Atiro-me ao sofá desconfortável. No braço do móvel, o controle remoto da TV
se insinua para mim, como última chance de interação no deserto cáustico que
secou-me o coração e frequentemente molha-me o rosto.
Emprego esforço íntimo para não recorrer a ele, enquanto meu pensamento
realiza a pergunta tão reincidente: “Como, por Deus, cheguei aqui?”
Emerge à memória um sorriso apaixonante, um beijo quente,
um sexo vigoroso que, no passado, faziam-me sonhar uma família.
Uma mão que enrugasse pouco a pouco com os dedos entrelaçados aos meus,
nos intervalos em que construiríamos, tijolo a tijolo, uma vida em comum,
plena dos acertos e desacertos de todos os amantes numa longa jornada.
Rendo-me ao controle remoto como para refugiar a mente
num circo que dissipe as lembranças.
Em uma fração de segundos, a tela mágica começa a exibir personagens
que conversam entre si, ignorando dolorosamente a minha condição.
O cérebro abstrai e nem me dou conta de que vou percorrendo as teclas
à procura de um não-sei-que, sem objetivo ou critério algum.
Entediado, dou as costas à tv, castigando-a com a mesma punição de que sou vítima:
a de falar às paredes imaginando que tenho alguma importância ou utilidade, ao menos.
Decido-me a iniciar o ritual: chuveiro, refeição, cama. E esperar mais um dia igual a tantos,
nessa rotina insana à qual me condenei por um veredito impronunciado.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Uma prova chamada solidão

Geme minh'alma desde há muito

premida , torturada e abusada

em todas as suas dobras e desdobras

pelo mais temível dos algozes: a solidão.


Em vão vasculho memórias -

até mesmo de vidas outrora vividas -

que revelem tão cruel crime possa eu ter perpetrado

a ponto de, na infausta hora presente, ser condenado

ao suplício do não-amar e não ser querido.


Com que habilidade terei eu me doutorado,

nas encarnações pretéritas,

na controversa arte de desperdiçar amigos,

tanto quanto na incompetência para cultivar amores?


Dia após dia, esforço-me por aprender a lidar

com esse maldito silêncio em casa.

Silêncio de não ouvir esposa dizendo "meu bem"

nem crianças vivazes gritando "papai!"


Sejam quentes, frios ou chuvosos os dias,

sigo vitimado pela sede brutal, jamais saciada

por sequer um afeto sincero.


Numa sinistra e extenuante rotina,

assisto calmamente meus dias se esvaírem,

e vou me resignando em ver minha carcaça envelhecer,

meus cabelos branquearem e a virilidade titubear.


Resta saber quanto será a duração desta pena.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Quem sabe?

Cabe tanta coisa num "quem sabe?". Cabe a dúvida eterna de um possível amor; a incerta e sempre adiada visita a um velho amigo; cabe o sonho de uma ou dez graduações, indo desde a agronomia até psicologia; cabe a expectativa de um novo emprego; o desejo de mais um filho ou filha; cabe até a opção pela solidão.
Um "quem sabe?" é uma espécie de reticência eterna, pulsante e covarde. É a sombra do possível que se arrasta atrás do ser curvado e melancólico a caminhar pelo vazio da casa que, no fundo, é a expressão tosca do vazio do próprio ser, escravizado pelo martelar dos segundos implacáveis no relógio empoeirado suspenso na parede.
Um "quem sabe?" é a voz titubeante e débil da não-decisão. É a recusa a se posicionar diante da vida. Vida que não suporta muros para se sentar em cima.
Um "quem sabe?" é a covardia do homem. É o grito de sua alma incapaz de protagonizar a própria vida, preferindo o estúpido lugar de coadjuvante na história alheia.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Essência

Há dias em que sou reticências
outros dias, carência.
Posso ser turbulência.
Quase sempre, veemência.

Também me definem,
vez em quando,
arroubos de eloquência
Em dias mornos, indolência.

Meu empenho é sempre
desenvolver paciência,
cultivar a benevolência,
amar sem intermitência.

No furor da existência,
dou-me por satisfeito,
se nas tantas vicissitudes,
eu mantiver minha ESSÊNCIA.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Chuva de domingo

Quisera compor um poema
em que coubesse exatamente
o inusitado, a surpresa
do meu olhar encontrando o teu.

Contudo, quando se trata de olhares,
de surpresas boas e outros sabores,
palavras ficam tímidas, revelam-se
limitadas para exprimir o arfar do peito.

Eu poderia apenas dizer que se tratava
de uma manhã chuvosa de domingo
em que nos apertamos as mãos cordialmente.
Por certo narraria o fato em si.

Tal narrativa, porém, encobriria algo
mais fundamental que qualquer "fato em si"
a sensação inédita de terem meus olhos
encontrado outros há muito procurados.

Abençoada manhã chuvosa de domingo!



domingo, 24 de março de 2019

Tolo Coração

Meu tolo coração,
depois de décadas acreditando
que o amor fosse porto seguro
descobri-o mar revolto, indômito.

No cais sombrio em que ancorei
minhas mais sinceras esperanças,
um vento gélido e úmido
todos os dias balança minha nau vazia.

E o quebrar violento das ondas
que se arrebentam nas pedras do ancoradouro
é metáfora a dizer sobre tantos golpes
sofridos e ressofridos por esta alma incorrigível.

Por que não naufraga logo, alma minha,
no oceano tétrico diante de ti?
Tudo isso é medo de encontrar os cadáveres
dos desejos que sucumbiram sem ver a margem?

sábado, 14 de outubro de 2017

Itinerário

Eu hoje fugi de casa, em meio à ventania.
O vento desalinhou meus cabelos lisos,
mas eu botei minha boina por cima
da bagunça da minha cabeça.

O sol fez arder meus olhos
e eu botei meus óculos escuros
para esconder sua irritação.

Vim escrever no meio do pasto.
Aqui, ao menos, há vida.
Há a vida velada no estrume que, pouco a pouco,
vira adubo e nutre a erva.

Faz tempo que saí daqui,
peito estufado, cabeça erguida,
certo de que o mundo estava doente
e que eu podia salvá-lo.

Hoje volto enfermo
de um mal que parece incurável.

Quando o médico era eu,
Passei algumas vezes por estes campos
sem atinar de olhar para o pasto.
Mas cuspi nele pela janela do carro.

Sequer olhei pelo retrovisor
no intuito de ver onde se assentava a poeira fina
que se erguia à minha rápida passagem.
Mas tenho certeza de que pousava sobre a pastagem.

Na verdade, naquele tempo eu
já havia fugido de casa.
Só não conhecia bem a força do vento.
E o sol parecia não arder tanto aos olhos.

Na fuga percorri muitos lugares.
Cruzei ruas e avenidas imensas.
Deparei-me com diversos olhares
e ouvi centenas de vozes que, eu sei,
permanecem dentro de mim, gravadas.

Vi corpos sensuais em gestos lascivos
na voluptuosidade das cidades em que perambulei.
Inúmeras vezes, fiquei insone à noite.
E o vento finalmente começou a incomodar,
bagunçando-me a cabeça e os cabelos.

E eu pequei.
desgraçadamente, pequei de forma incompleta, porque o fiz só.
Se ao menos eu tivesse pecado por inteiro...
Se tivesse pecado muito bem acompanhado, haveria um quê de prazer.
E o remorso seria menos doloroso.

O inferno seria mais brando,
esta secura teria, aqui e acolá, gotas de esperança.
Eu agora veria essa pastagem com outros olhos
e o vento e o sol não castigariam tanto.
Talvez eu nem fugisse mais de casa.

Mas o pecado se multiplica no mundo
graças a homens como eu,
que se julgam santos demais e que, ao tropeçarem,
deixam à mostra toda a sua hipocrisia.

Meu epitáfio seja:
“Aqui jaz um desgraçado
que um dia fugiu de casa
e perdeu-se na ventania”.

E rezem os que ainda me amarem
afim de que eu me torne
ao menos um montinho de estrume.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mutismo

A horas
o telefone e eu
nos olhamos teimosamente.

Eu esperando
que ele me fale de você.

Ele calado,
simplesmente alimentando
minha ansiedade.

domingo, 11 de setembro de 2016

Santo

Quando criança
eu desejava ser santo.
Tanta coisa eu desejava
quando menino!

Santo parecia nobre,
era fabuloso
sonhar sê-lo
ainda que mutilasse
e mesmo que eu não soubesse
todas as implicações
de ser santo.

Por ser o santo de barro
eu inda não sabia
que havia corrido sangue
nas suas santas veias.

Hoje eu sei duramente
que santo, em verdade,
não nasce santo.


domingo, 28 de agosto de 2016

Desenhador de letras

Sinto imensa saudade
de desenhar letras.
O teclado prático do computador
não me deixa mais fazê-lo.

Quase me esqueci
da graça das vogais
da versatilidade das consoantes.

Ah, a maciez do caderno!
O cheirinho de papel novo!
As sílabas surgindo
De movimentos bem calculados.

Nunca gostei de letra feia.
Escrevia sempre com esmero,
contendo a pressa que
as ideias reclamam.

Ideias tendem a atropelar a mão.
Talvez por que elas é que sejam
verdadeiramente importantes e urgentes.

Bendita seja a escrita que,
no enfileirar das letras
estende um tapete vermelho

para o desfile do ideário.

domingo, 28 de junho de 2015

Urgência

O tempo é agora.
A hora é já!
O fazer não espera.
O realizar urge.

Porque o ontem
desvaneceu em meio
a uma poeira fina e débil.
E o amanhã é só um espectro.

Portanto, não espere.
Não adie o amor, o perdão,
o carinho, o aperto de mão.
Não negue hoje.
Não se negue hoje.

Basta um infarto,
uma derrapagem na estrada,
um aneurisma ou
um avião que some do radar.

E o calendário de amanhã
será marcado pelas lágrimas
dos que nos amaram
e não puderam dizer.

Basta um bandido desalmado,
um ataque cardíaco,
um cachorro raivoso
ou um engasgo estúpido.

Você e eu não teremos mais
a chance de significar um para o outro.
Passaremos sem saber
o que teria sido, como teria sido.

A vida é ávida
a respiração pede sustos.
Os olhos mais felizes
são os que choraram emoções vividas.

As memórias só são memórias
para quem não protelou,
para quem entendeu cada segundo de vida
como um instante irrepetível e inalienável.

O tempo não perdoa

quem nada faz dele.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Entrelinhas


Em todas as palavras
Há um silêncio
Um não-lido,
Um não-escrito

Um não-gritado
Que aos poucos
A poesia extravasa
Em forma melódica
Às vezes tórrida.

Em todo gesto
Há um não-demonstrado
Um “tente adivinhar!”
Um “decifra-me ou te ignoro”

A beleza de certas coisas
Nasce do não dito
Do não expresso,
Que parece feio ou grosseiro.

Aí é que entra a poesia
Cantando o que nunca se diz
Melodiando  o que jamais se explica
Revirando as vísceras das entrelinhas.

É isso o que me faz
Amar a poesia.
É isso o que me motiva
A não desistir dela:

Gritar as entrelinhas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A Tolice e o Amor

Ao meu redor, todo o espaço inútil
de uma solidão sem sentido.
E um monstro patético abraça-me
enquanto se ri de minha credulidade no amor.

No peito um coração abatido,
consoante minh ‘alma atormentada.
Um querer ilegítimo e absolutamente sedutor
Conduzira-me pela mão até a beira do precipício.

Mas a tolice, inimiga de tantos,
é minha fiel escudeira e evitou-me a queda.
A tolice e o amor, algemas irremovíveis
de meu espírito romântico.

Afinal, só se tem o direito de ser tão tolo
quando se tem consciência da própria tolice.
E isso eu tenho, embora não aprenda nada
nem com a consciência nem com a estultícia.

Faz muito calor na cidade,
Mas dentro de mim o sangue
parece correr gelado e amargo nas veias.

O sol brilha radiante lá no céu.
Contudo, o teto do meu quarto
assemelha-se a um céu sem estrelas.


E sem redenção.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Amor

Brisa úmida,
saudosa alegria
dos dias vividos
ao lado de um alguém.

Cheiros, sabores, sons...
Suga minha memória
o buraco negro da solidão.

O sentimento que um dia
batizou-me no altar da paixão,
agora não passa de um desejo
irrealizável e tolo.

Desejo o arrebatamento.
Quero ausentar-me um pouco
desse mundo aceitável
que plasmei para mim mesmo.

Nesse momento, para o amor
sou uma equação que não fecha.