domingo, 26 de agosto de 2012

Fim de dia

Casebres caiados
banhados pela luz morredoura
de um sol que se dilui no horizonte.

Crianças correndo
pela rua poeirenta
despreocupadas da vida.

Pés descalços,
cabelos desgrenhados,
despedidas dos dentes-de-leite.

Umas poucas peças de roupa
balançam molemente
num varal frouxo, ao fundo do quintal.

Nas cozinhas, as mães catam o feijão
pensando no custo de vida
e na novela das nove.

Um som distante, quase inaudível,
anuncia fim de expediente
na fábrica distante.

Um suarento vendedor de picolés
passa pela vila com seu carrinho,
acionando a buzina rouca e melancólica.

Em pouco tempo um exército de pais
surge lá no início da rua,
carregando cansaço e esperanças.

Num instante pais, mães e crianças
estão em torno à mesa
com suas histórias do dia.

Um jantarzinho singelo
aquece os estômagos e os corações.
Em seguida um cafezinho, à guisa de sobremesa.

Quando todos apoiam as cabeças,
enfim, sobre seus travesseiros,
ninguém tem dúvidas do que seja a felicidade.

domingo, 13 de maio de 2012

As mães são portas

Mãe é muito mais
que um simples nome.
É um título conquistado
pela valentia da mulher
que assumiu as rédeas da vida.


As mães são portas abertas,
ligando a Terra ao Céu.
Por elas transitam anjos de Deus
trazendo alminhas nos braços.


Seu útero é um santuário;
seu coração, templo de oferendas
e sacrifícios ilimitados.

Deus disse tudo sobre as mães,
quando viveu aqui entre nós,
humilde e submisso
à sua filha-mãe Maria.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Eu amei

Eu amei.

Sim, esse meu coração
atrofiado, ressabiado,
já foi acordado
pela doce melodia.

Um dia,
numa data perdida
entre o fim da infância
e o início da vida adulta
eu amei ardorosamente.

Essa é a mais pujante lembrança
que me abrirá a consciência
quando eu penetrar a outra vida.
Eu amei inesquecivelmente.

E como todo amante real
eu ri, chorei, suei frio,
senti o corpo se arrepiar e tremer,
o sangue circular forte.

Nem sempre eu fui essa palmeira
solitária na praia de mim mesmo.
Essa palmeira balançada
pelo vento besta do não-amor.

Moderno

Eu li o mundo,
mudo.
Milhões de sílabas
esquecidas.
Não havia vozes capazes de dizê-las.

Eu li, mudo,
às secretas confissões
dos seres silábicos.

Dores de parto sufocadas,
gemidos de agonizantes aplacados.
Todos os relógios do planeta parados
à espera da espera.

E formigas amontoadas
ziguezagueando atônitas,
rindo, sorvendo uma vida
sem vida.

As palavras já não servem,
a poesia não serve,
tampouco a música se aproveita.
A música emudeceu também.

Quem tem olhos para ver, tape-os.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ocaso e descaso

Entre as dezenas de justificativas
para se colocar fim a uma história,
você simplesmente escolheu nenhuma.
Foi apenas uma despedida fria e... o silêncio.

Nas memórias dos casais desfeitos,
há sempre para narrar aos amigos
um último olhar, um derradeiro toque,
um beijo melancólico de despedida
ou mesmo uma apocalíptica discussão.

Entre nós, contudo, nada de olhares.
Nenhum toque ou beijo, tampouco um bate-boca.
Sem acusações ou mea-culpa, sem choro ou ironia,
em meio a evasivas você tão somente saiu de cena.

Os bits do ambiente virtual onde nos conhecêramos
foram calmamente carimbando caracteres
até que surgisse, completa e inexorável,
a frase que seus lábios me negaram dizer pessoalmente:
"Sim, estou colocando um fim na nossa história."
"Tchau. Fica com Deus."

Destoando completamente do imenso respeito
que tivemos o tempo todo um pelo outro,
apenas assisti, perplexo, à desconsideração
de sequer poder argumentar ou cobrar uma explicação.


O calor de todos os nossos beijos,
aquele arrepio suave provocado pelos toques de carinho,
o som, ao mesmo tempo firme e doce, da sua voz.
Tudo foi substituído pela secura de um teclado morto.
E o fim descrito como uma sentença no monitor sem alma.

Nos dias seguintes, inutilmente esperei que emergisse
daquela tela luzente uma mensagem nova
que desfizesse o mal entendido.
Ou mesmo uma ligação que dissesse:
"Seu beijo me faz falta!"

O celular e o computador, porém, ficaram inúteis.
Tanto quanto as inúmeras perguntas
que torturam meu pensamento sem descanso.
Como pode decidir sozinha que ficaríamos melhor separados?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal

Chega, mais uma vez, a oportunidade de celebrarmos no Natal. Adentramos o século XXI, a sociedade reedita seus valores constantemente e numa velocidade impressionante. Assustadora também é a velocidade com que o planeta renova seus mecanismos de tecnologia. Tudo, cada vez mais, nos chega como novidades espantosas a facilitar a nossa vida, ao mesmo tempo em que uma porção de coisas que simbolizavam o moderno vão ficando obsoletas.

É incontestável que, do século XXI pra cá o mundo passou a conhecer uma revolução científica e tecnológica sem precedentes.

Entretanto, uma imensa massa de pessoas concordam que a evolução moral do ser humano não acompanhou esse ritmo.

É claro que tivemos avanços estupendos no que diz respeiito à convivência entre os povos: já faz tempo que Guerra Fria é apenas expressão dos livros de história, as mulheres conquistaram merecidamente seu espaço na sociedade, ditaduras cruéis caíram, vários índices que apontam as melhorias nas condições de vida da humanidade melhoraram, legislações no sentido de amparar as minorias vão sendo costuradas com mais ou menos bom senso etc.

Então, do que as pessoas reclamam, quando dizem que a evolução do ser humano não foi expressiva?

Isso também se fundamenta em dados muito concretos. Menciono alguns: pipocam mundo afora histórias dramáticas de violência do ser humano conta seu semelhante; índices que apontam corrupção sistêmica em alguns países - Brasil, na liderança - são alarmantes, indicando que os detentores do poder ainda não ligam para as multidões de trabalhadores que confiam seu honesto dinheiro aos cofres públicos, esperando obter retorno adequado em serviços de saúde, segurança pública, educação e transporte; a desigualdade social no planeta todo ainda é gritante, sendo que há ainda hoje milhões (ou bilhões?) de seres vivendo abaixo da linha da pobreza, enquanto há meia dúzia de bilionários usufruindo das benesses do mundo; um grande número de ataques a homossexuais ou negros ou moradores de rua ainda é registrado; a internet, essa ferramenta fantástica que une o ser humano de ponta a ponta do globo, tem visto suas redes sociais infestadas de intolerância, ódio, racismo, preconceito de todas as categorias, seja religioso, de raça, de orientação sexual, preferência política ou desportiva; a violência contra a mulher parece só crescer, os casos de pedofilia não param... Enfim, aos olhos de muitas pessoas, esses são motivos mais do que suficientes para afirmar que o mundo só tem piorado.

Mas, afinal, o que é que o Natal tem a ver com tudo isso?

O Natal, meus caros, apesar de ter se transformado no maior mecanismo de apelo comercial do mundo, é simplesmente a celebração do humilde nascimento daquele Jesus Cristo que veio a este mundo trazer (ou ser, como ele mesmo disse) o caminho para que o ser humano se supere a si mesmo e vença todos os seus males interiores, males que ainda permitem a existência de um quadro de dor e injustiças nesse nosso planeta.

Portanto, o Natal deve ser ocasião de olharmos atentamente, não só para as árvores enfeitadas ou para os presentes distribuídos ou a farta comida à mesa, mas também - e principalmente - para a vida desse nosso Mestre da bondade, do amor, da tolerância, da humildade e de todas as demais virtudes possíveis ao ser humano.

Celebremos, portanto, ao redor de nossas mesas fartas (aqueles que as tem assim), ao pé da nossa árvore decorada. Celebremos, sim, abrindo presentes bonitos.

Mas, sobretudo celebremos com o coração alegre pelo fato de termos um Mestre e Senhor que é o modelo que todos nós podemos seguir se quisermos ser melhores seres humanos.

E eu acho que todos queremos. Ou será que não?


ENTÃO, FELIZ NATAL A TODOS(AS)!!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Encontro



Amor,
Onde encontrar palavras adequadas?
Como exprimir com um mínimo de exatidão,
o que significa teu olha pousado sobre mim?
De que maneira poderia uma poesia retratar
minimamente o que não se enquadra na palavra?

Definitivamente não há como pronunciar toda a ternura
dos nossos corpos dialogando entre si.
Encontramo-nos, enfim.

Tudo em nós ansiava por este encontro.
Nossas almas justapostas,
nossos lábios calados pela eloquência de beijos ardentes,
disseram um ao outro que nos pertencemos desde muitas vidas.

Agora, mesmo quando não está aqui, aqui está,
palpitando em meu peito, entrando e saindo dos meus pulmões,
rosto que eu vejo a todo momento diante de mim, quer abra ou feche os meus olhos.
Porque não há distância entre almas que se uniram pela cumplicidade como as nossas.

Você me perguntou onde eu estava todo esse tempo em que eu vivi longe de sua vida.
Acho que tenho já a resposta: eu estava ensaiando arremedos de felicidade,
preparando meu coração com pequeninas alegrias.
Assim ele tornou-se robusto o bastante para carregar o sentimento gigante que você me traria.

Tudo o que eu vivi até agora, meu amor, foi simplesmente preparação para nosso encontro
aprendendo a ser o melhor que eu posso ser para nós.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A minha morte

Ontem eu pensei na minha morte.

(Antes de mais nada, acalmem-se, eu não sou um suicida e isso aqui não é uma carta-testamento ou coisa que o valha.)

É sério!

Estudei mil maneiras de escrever isso usando alguns eufemismos. Pensei até em não escrever, afinal eu já escrevi um poema sobre a morte - "Surpresa" é o título - mas não teve jeito.
Porque foi mais que um pensamento, foi uma sensação tão real e viva (que paradoxo!), que eu não poderia deixar de registrar aqui.
Hoje eu pensei, senti e chorei a minha própria morte. E fiz isso sob algumas variadas perspectivas, o que julgo perfeitamente compreensível quando ainda se está vivo.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi o "como" eu morreria. Em instantes eu me vi debruçado sobre o teclado do meu laptop, vítima de um ataque cardíaco fulminante (claro que eu não vou querer sofrer antes da passagem!).
Assim eu fui encontrado: cabeça pousada sobre o laptop aberto. Na tela, logado em uma das minhas redes sociais o início de um texto que eu jamais viria a concluir.
Depois do trauma indescritível de um familiar meu me encontrar cadavérico - cena pela qual eu passei bem rápido, obviamente - passei a fantasiar com muita lucidez como seria cada um dos demais familiares, amigos, ex-namoradas e conhecidos recebendo a notícia do meu desencarne. Eu pude sentir a reação de choque de cada um deles. Era muito real, assustadoramente real!
Nessa hora comecei a chorar compulsivamente. E o mais estranho é que eu não chorava as consequências da minha morte na minha vida - e isso não é um trocadilho! - mas chorava a consequência na vida de cada um deles(as). Foi então que eu quis interromper o pensamento, mas o teatro mental não fechava as cortinas e, em instantes, meu velório estava organizado.
Eu passeava tranquilamente entre as pessoas, completamente consciente de tudo o que se passava, mesmo assim sereno, olhava para meu caixão e ficava ouvindo os lamentos de cada um em particular. Embora nesse momento eu já não chorasse mais, como isso doeu! Sobretudo quando se tratava de minha mãe e de minha irmã.
A todo momento um homem calmo que me acompanhava dizia com sensível educação: "Agora chega, Ronaldo. Vamos embora."
Embora eu não respondesse nada ao homem calmo, ele parecia ler meus pensamentos que diziam: "Não, ainda não! Quero ficar mais um pouco."
Uma pessoa então aproximou-se do caixão e, alisando-me a barba com ternura, disse: "Pena eu não ter conseguido te dizer mais uma vez o quanto te amava! Você foi muito importante na minha vida."
Continuei passeando entre os presentes. O salão estava lotado. Por todos os cantos, as expressões da perplexidade ante uma morte tão repentina e, de certo modo, prematura. Palavras amenas aqui e acolá, contidas manifestações de apreço. Mais na periferia do salão, especulações sobre a causa da morte, descrições as mais fantasiosas sobre como minha mãe me teria encontrado morto em meu quarto. Mais adiante, claro, algumas anedotas e conversas sobre corrupção no governo, a política de juros, o preço do café, a novela das nove etc. Afinal, velório é velório...
Numa cena derradeira, meu caixão descendo à sepultura em meio a lamentos incontáveis. Parentes meneando a cabeça inconformados. Uns pensando: "como pode ter ido tão cedo. Nem um filho ele deixou!" Outros conjecturavam: "Lá se vai, sem ter pago nenhuma das suas dívidas. Acabou se safando!"
Antes que o cemitério se esvaziasse e eu começasse o processo de ser pouco a pouco esquecido pela grande maioria dos presentes, o sereno homem de branco mais uma vez instou a que fôssemos embora e eu anui não menos calmamente.

Assim foi o filme que se passou na minha mente na tarde de ontem. Pena eu não ter conseguido assistir o desenrolar de minha penetração no mundo espiritual.

domingo, 28 de agosto de 2011

Versos cheios

Pobre homem
este que adentra meu quarto
arrastando chinelos e angústias
e cujo silêncio tornou-se comum.

Sufocados seus amores,
estancadas injustas lágrimas,
senta-se à velha escrivaninha
à espera de um verso que lave sua alma.

Pobre homem, à beira dos quarenta,
um coração de velho batendo no peito.
Mas ele não se lembra bem
deter vivido sonhos de criança.

Recorda-se somente de ter vivido meses
na casa da felicidade,
de onde saiu aflito, pisando duro,
e deixando alguém a chorar.

Pobre homem mudo
a quem a vida parece grande demais.
Onde estão seus amigos?
Seus amores, cadê?

Pobre homem de versos cheios
e vida vazia.

domingo, 21 de agosto de 2011

Nada Sei

Existe uma frase muito comum nas páginas das redes sociais, que diz o seguinte: "Quando a gente acha que sabe todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas".

Parece, de fato, uma excelente frase de efeito. Mas ela tem assumido uma dimensão muito real na minha vida, diante de circunstâncias que tenho vivido ultimamente.

Bem próximo dos meus 37 anos de idade, depois de ter vivido algumas experiências no âmbito da religião e tantas outras no que tange relacionamentos afetivos, sinto-me estranhamente perdido, com a sensação exata de que tudo o que eu pensava saber sobre mim mesmo ou sobre a vida não tem consistência, é uma ilusão que eu criei para alimentar meu ego.

E pior que a sensação de que nada sei, é um certo desespero de não saber também como agir.

Tenho, nesse momento, a exata noção de que preciso rever muitos de meus conceitos, romper com paradigmas, começar a reescrever minha história. Mas não estou sabendo como começar isso.

Confesso minha ignorância a respeito de muitos aspectos de mim mesmo. E dói-me enxergar que tal ignorância, além de frear a minha evolução, feriu pessoas que conviviam comigo enquanto eu achava que estava absolutamente seguro. Eutransformei essa pseudo-segurança em prepotência, arrogância e insensibilidade. Isso fez-me perder a possibilidade de harmonia com a pessoa que, sem dúvida, mais me amou nessa vida e a mim se dedicou com desprendimento.

Agora, num momento em que a solidão penetra o mais íntimo de mim, aborvido por elucubrações as mais diversas, tenho medo, muito medo.

Antes de mais nada, medo da própria solidão. Medo dessa falta que me faz uma mão que segure a minha com carinho e paciência. Medo do tamanho da tarefa que vejo não diante de mim, mas dentro de mim.

Felizmente, coabitando com o medo, há em mim uma brisa de esperança. Essa esperança me diz que é possível, que há um pouco de luz.

Assim espero e peço a Deus que me ajude, de fato, a realizar a tarefa de me reconstruir.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Não vale a pena

Estou longe,
muito longe de minha terra.
Não falo de minha terra natal,
lugar físico onde eu nasci
para viver essa experiência corporal.

Estou longe da terra que sou eu mesmo,
como que vivendo uma experiência de nulidade
e, relação à minha essência verdadeira: o amor.

Em labirintos atordoantes
venho caminhando.
A boca sedenta, o coração acelerado.

A cada curva a certeza de que encontrei
uma felicidade preparada para mim desde sempre.
Mas tudo são miragens, talvez construções mentais.

O que eu quero não existe!
Está por ser feito, carece de laborioso empenho.
E minha mente diz sem cessar: "Não vale a pena!"


quinta-feira, 10 de março de 2011

Enquanto o poeta escreve...

Estou surpreso.
Acesso meu blog e constato que minha última postagem data de 11 de dezembro do ano passado, dia de meu aniversário.
Minha surpresa se justifica porque escrever sempre fora vital pra mim. Sobretudo escrever poesia.
Lembro-me de épocas em que tudo me inspirava, me aguçava. Certa vez, durante um dia atribulado de trabalho, sentei-me no ponto de ônibus para esperar a condução e o barulho da avenida me inspirou um simpático poema.
Ah, bons tempos aqueles em que tudo era material e motivo para eu pegar a caneta e enfileirar palavras, construir idéias e, quase sempre, no final maravilhar-me delas. Um drama pessoal, uma notícia de jornal, uma paisagem. Tudo despertava-me o desejo de fazer poesia. Confesso, inclusive, que deixei passar muitas dessas ocasiões, ora por estar em lugar inapropriado, ora por não dispor no momento de papel e caneta. Que arrependimento!
Hoje, estou seco. Sinto-me frio, meio que refratário às inspirações que tentam se aproximar. Temas que antes mexiam comigo, hoje passam ao largo da minha percepção ou de meu interesse.
Sempre apreciei falar e escrever sobre política e os temas sociais que a ela estão subordinados.
Desanimei.
Como falar de política num país onde tão raras vozes se erguem para defender o povo - principal foco da boa política - , enquanto nossos nobres parlamentares se concedem a si mesmos mais de 60% de aumento dos já polpudos salários? Pior: logo em seguida, aprovam com grande adesão um reajuste ridículo para o salário do povo - o mínimo. Reajuste que, segundo ouvi de um economista, não repõe sequer as perdas inflacionárias do ano passado.
Eu também gostava de falar de amor, de romantismo... e coisas afins. Entretanto, estou bem mais propenso a viver um amor do que a escrever sobre ele. Mais do que palavras ou canções bonitas, prefiro cultivar meu romantismo no cuidado diário. É incrível como nas coisas mais simples da vida a gente consegue cuidar bem da pessoa amada. Deois de um longo e cansativo dia de trabalho, se oferecer pra cozinhar pra ela e deixá-la descansar no sofá enquanto assiste a novela, ou se oferecer pra lavar a louça depois que ela gastou boa parte do tempo cozinhando. Esses e outros cuidados tão simples de cuidado e carinho falam mais que as mais tocantes palavras de amor.
Além do mais, muitas das minhas poesias de amor de outrora falavam de frustrações, de solidão, de coisas não realizadas, separações.
Assim, ainda que eu sinta falta de escrever sobre o amor, nesse tema estou mais reconfortado, porque, se não estou escrevendo, estou vivendo intensamente.
Outro tema que me instiga bastante é religião. Desde muito cedo eu gosto de tratar de religião, espiritualidade, temas transcedentais.
Por outro lado, é um tema pouco recorrente na minha poesia.
Ademais, desde que optei por mergulhar na doutrina espírita, nela encontrei bases seguras sobre as quais construir minha evolução espiritual. O espiritismo tem me ensinado, dia a dia, as razões da minha fé e tem me mostrado que o Evangelho é uma ferramenta potente de transformação íntima.
Claro que tenho um desejo ardente de escrever sobre espiritismo. Mas ainda não chegou a minha hora. Estou no tempo de ler, de apreender. E o que não falta são livros! Além das obras básicas da doutrina, codificadas por Kardec, uma infinidade de autores e temas há para serem explorados, debatidos e compreendidos. De minha parte ainda não possuo autoridade moral, tampouco profundidade doutrinária para me meter a escrever sobre espiritismo.
Como se vê, acabo eu mesmo de entender a razão pela qual eu tenho escrito tão pouco.
Certa vez eu disse o seguinte: "Enquanto o poeta escreve, as pessoas vivem". Tal frase refletia uma época em que eu vivia mergulhado em angústias, depressão e medo. Uma fase em que eu andava escondido do mundo, e sofria por achar que estava à margem da vida, incapaz de encontrar nela as alegrias que as pessoas à volta demosntravam.
Pois bem, agora o poeta também vive. E dessa vivência, certamente há de nascer uma poesia mais sólida, a seu tempo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Meu aniversário

Mais um ano se passou... E como têm passado rápido os anos! Completo hoje 36 anos, com saúde, amor, alguma grana pra satisfazer pequenos desejos e rodeado de pessoas que amo. Que mais eu poderia desejar de bom nessa vida?

Estou feliz!

Logo estarei de férias do trabalho. Aí prometo me dedicar mais ao blog.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

De volta ao trabalho (e ao blog)

Finalmente, sinto restabelecer-se a minha plena saúde.
Tanto que resolvi voltar ao trabalho.

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Ontem, ainda convalescente, concluí a leitura saborosíssima de "Nosso Lar". Depois de ter me sensibilizado tanto com o filme, não pude deixar de me debruçar sobre a obra de André Luiz, chegada até nós pelas mãos do grande Chico Xavier.
Sem dúvida que o livro é ainda mais atraente, mais esclarecedor e alentador. A transformação moral lenta e laboriosa por que passa o espírito do médico após seu desencarne é sem dúvida um roteiro iluminador para nós, que inda militamos nas fileiras da terra em busca de evolução e aprimoramento.
Após o filme, assim como eu, inúmeras pessoas ficaram com suas mentes focadas na experiência dolorosa do Umbral, chocadras com a destinação - provisória - do médico letrado e culto, bem situado socialmente, após a decadência do envoltório físico.
Entretanto, a lição fundamental da obra é evidenciar a possibilidade da transformação, por meio de árduo trabalho no bem e perseverante mudança de conceitos. André Luiz vai se despindo, pouco a pouco, de suas convicções egoístas, deixando para trás pensamentos de um homem devotado às coisas materiais e provisórias. Abrindo sua mente à verdade e seu coração à caridade verdadeira, encontra um roteiro seguro de evolução para si e o estende aos seus amados.

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Depois de um bom tempo tentando entender essa ferramenta chamada Twitter, finalmente eu resolvi criar lá o meu perfil.
Claro que continuo sem entender quase nada. kkkkk
Mas, estou lá! Agora vou aprender na prática.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Cronologia de uma enfermidade

Na sexta-feira pela manhã, ao começar o expediente no escritório, percebi que havia algo de errado comigo. Uma dor de cabeça chatinha começava a incomodar e dores musculares pipocavam pelo corpo todo. Além disso, tinha início um desânimo fora do comum pra quem havia tido uma excelente noite de sono. Comecei a bocejar repetidamente.
Saquei da gaveta de minha mesa a cartela de dipirona que sempre me salva nessas horas. Tenho absoluta confiança na eficácia da dipirona, ela tem sido minha salvaguarda quando a dor de cabeça começa a perturbar meu dia de trabalho ou mesmo quando ameaça meu lazer.
Só que, desta vez, nada.
O quadro geral piorava e eu trabalhava só pensando no franguinho caipira com arroz, combinado com os companheiros do truco para a sexta a noite. Combinado com uma semana de antecedência, diga-se de passagem. Eu só conseguia pensar no seguinte: "aconteça o que acontecer, vou jogar meu truquinho com os amigos e comer o franguinho preparado pela tia Almeirinda".
No fim da tarde, ao chegar do trabalho, mais dipirona, dessa vez em gotas. Um pouco aliviado, parti para meu compromisso tão esperado.
Foi divertido. Jogamos até por volta das 21:30, quando o jantar foi servido. A Rita e o Rafael jantaram conosco.
O jantar estava maravilhoso, mas logo que voltamos para a mesa de truco, percebi que os sintomas do dia todo voltavam com força, acompanhados de febre. Também notei que a digestão seria meio complicada.
"Dane-se!", pensei. "Vou pra casa, tomo mais umas gotas de dipirona, deito-me e amanhecerei novinho em folha".
Minha irmã estava chegando de viagem pra passar o feriado conosco e nada haveria de estragar a reunião em família.
Ledo engano.
Passei o sábado "de arrasto", como se costuma dizer. Um Dorflex aqui, uma dipirona ali... tentando ser forte. Mas as dores eram horríveis. A febre surgia de repente, assustadora. Durante o tradicional truco do sábado à tarde, na casa de meus pais, foi difícil manter-me aplicado ao jogo. Um desânimo descabido assolava-me, a dor no corpo todo minava-me as forças e a cabeça doía inexoravelmente, ignorando o poder soberano da dipirona.
O último compromisso da noite seria um churrasquinho em Ribeirão Corrente, cidade vizinha onde mora meu irmão. Lá cheguei por volta das vinte e duas horas, um tanto aliviado por uma dose mais exagerada de remédio.
Comemos alguma coisinha, nada de cerveja. Logo retornamos a Franca.
No domingo tentei ignorar o mal estar. A Rita e eu nos levantamos tarde, buscamos o Rafa, que havia dormido na casa da avó, e fomos passear um pouco. Almoçamos no shopping e, de volta pra casa, mais remédio pra contornar a dor.
Amanheci a segunda-feira já pensando no retorno ao escritório, na terça. Eu completaria um ano de trabalho lá. Gosto dessas datas, acho-as significativas. Fomos almoçar na casa dos meus pais, e nos despedir da Jú, que voltaria pra Brasilia logo após o almoço.
Antes de sair, minha irmã me disse a mesma coisa que a Rita já vinha dizendo: "Vai ao plantão do hospital, afinal você paga plano de saúde. Não tem sentido ficar sofrendo sem saber o que tem!".
Convencido, me dirigi ao Hospital Regional. Estava péssimo. A cabeça doía demais, o corpo só pedia repouso e a febre oscilava.
O médico que me atendeu pediu que eu coletasse urina e sangue pra exames. Duas horas depois, o Dr. Rubens Pereira dos Santos, infectologista e clínico geral, com o resultado de meus exames em mãos, deu-me a notícia: "O quadro é de dengue. As alterações nos exames e o conjunto dos sintomas são característicos da doença."
Recomendou-me repouso e prescreveu remédios que aliviem os sintomas.
Resultado, comemorei em casa meu aniversário de um ano como funcionário do escritório. E agora estou aqui, arrastando chinelo dentro de casa, esperando esse maldito vírus sair de minha vida.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Espiritismo e o Demônio

Anteontem, minha mãe veio me narrar uma conversa que teve com uma amiga. O tema, religião. Numa curta definição, a sua interlocutora, católica fervorosíssima, conceituou: “Espiritismo é coisa do demônio!”.

Sabedora de meu extremo interesse por assuntos religiosos, narrou-me todo o diálogo que travou com a inquisidora de Kardec com o habitual interesse de captar cada mínima reação minha. Afinal, não é qualquer mãe que tem o privilégio de ter em casa um ex-frade franciscano, antes candidato à carreira eclesiástica agora convertido em kardecista convicto e atuante.

Diga-se de passagem, que é uma praxe nos ambientes onde convivo. Sempre que surge o tema religioso, seja para elogiar ou depreciar esta ou aquela seita ou doutrina, imediatamente os olhos em derredor se voltam para mim, buscando-me como uma referência de conceito. Devo confessar que isso me afaga um pouco o ego, fazendo-me sentir uma espécie de formador de opinião.

Diante da narrativa de minha mãe, calei-me, contido. Para seu descontentamento, infelizmente. Afinal, as pessoas sempre esperam ver um homem reagir revoltado quando se ataca veementemente a sua crença. Minha velha mãezinha não foge à regra.

Hoje, três dias depois de ela ter me contado o episódio, depois de ter refletido um pouco, achei interessante postar um texto a respeito.

Lembro-me, agora, de um outro comentário, também de uma amiga da mamãe – esta, Testemunha de Jeová -, dentro de nossa casa. Ela teria dito, segundo a narrativa da mamãe: “Espírita não serve pra conviver comigo!”. A memória de minha reação interior de então, me faz crer que evoluí no sentido de ouvir disparates. Naquela circunstância, assim que minha mãe contou-me o fato, minha primeira reação, silenciosa foi a de pensar: “Pena eu não estar por perto pra dizer: ‘Ora, Dona Inácia, como a senhora sabe, sou espírita. E de modo algum quero que se sinta obrigada ao desprazer de suportar a minha presença tão indesejável. De modo que, como eu moro aqui, seria justo que a senhora saísse. Afinal, como diz o velho ditado, a porta da rua é serventia da casa’.” Claro que esse pensamento foi um relâmpago na minha mente, pois a educação que meus pais me deram e o respeito que nutro pelos mais velhos e pelos que têm outra crença jamais me permitiria tal ousadia.

Voltemos à frase do início do texto: “Espiritismo é coisa do demônio!”. Considero essa uma frase clássica, hoje em dia. Sim, é um dos chavões mais usados para conceituar a doutrina dos espíritos, codificada por Hippolyte Léon Denizard Rivail, o nosso Allan Kardec.

Há tanto o que se comentar a respeito disso, que perco-me na organização da argumentação. Apenas vou começar explicando porque não retruquei nem revoltei-me. Simples: essa frase clássica de atribuir às artimanhas do “tinhoso” toda a doutrina dos espíritos, e toda a obra de amor e caridade que delas têm brotado desde 1857, normalmente sai da boca dos ignorantes. E não estou usando a palavra “ignorantes” na conotação vulgar que se usa por aí, querendo desclassificar pejorativamente o indivíduo.

Quando digo que esse conceito é típico dos ignorantes, estou me referindo àqueles que falam sem conhecimento de causa, que de fato ignoram o que estão julgando, por jamais terem lido uma linha sequer das obras da codificação ou que nunca botaram os pés numa casa espírita para testemunhar a imensa obra de amor evangélico que move a engrenagem espiritista. A mesma ignorância de que poderiam me acusar se eu fosse aqui falar contra os transgênicos ou as pesquisas com células-tronco, sem jamais ter me aprofundado sobre qualquer um desses assuntos. Pelo menos não mais que a leitura de alguns artigos de revistas e jornais ou algum conteúdo de internet.

Falar sem conhecimento absoluto de causa, por si só já desclassifica a opinião. Não dá margem nem ao debate.

Claro que também temos oportunidade de discutir seriamente a doutrina com pessoas que buscaram conhecê-la, pesquisaram-na e a mesmo assim não a reconhecem como legítima. Esse tipo de debate é muito interessante e enriquecedor, porque nos inquieta e nos desafia. E sobretudo nos faz ter a humildade de saber que nem todos pensam como nós e nem por isso são condenáveis. Apenas enxergam a vida sob um prisma diferente e para elas não se aplica como verdade aquilo que para nós é razoável.

Ainda voltando ao argumento da amiga da minha mãe, creio que valha a pena explorar um pouco o tema.

Existem construções filosóficas e teológicas bastante extensas e complexas acerca do demônio, diabo, capeta, satã ou como queiram denominá-lo. Há inclusive, doutrinas divergentes sobre a figura satânica que aterroriza o mundo e rivaliza com Deus desde os primórdios. Não vou explorá-las aqui, tampouco discorrer longamente sobre cada uma delas, posto que isso não é um tratado, mas um artigo para reflexão menos elaborado.

Parece-me que a doutrina mais defendida entre as doutrinas cristãs – inclusive a Igreja Católica – é aquela segundo a qual o demônio teria sido criado por Deus na condição de um anjo.

Aqui cabe um parênteses para dizer que, para a Igreja, os anjos são seres criados à parte, nem deuses nem humanos, que intermediam as relações entre a divindade e a humanidade.

Segundo a doutrina vulgarmente conhecida como a “doutrina do anjo decaído”, não obstante Lúcifer gozasse de uma proximidade extraordinária com Deus, em determinado momento teria se rebelado contra Ele, por inveja, e se transformado numa criatura para sempre devotada ao mal. Um ser que vive peremptoriamente uma queda de braço com Deus. Nessa luta, o troféu é a alma do homem. Ou seja, as almas dos homens desde o início da existência da humanidade, onde estava satã na figura da serpente, prontinho para seduzir imediatamente o primeiro casal humano a habitar a Terra.

Concebe-se então que o demônio tenha um território circunscrito, a que as religiões denominam inferno, para onde ele arrasta - depois da morte - as almas dos homens e mulheres que seduziu em vida. Nesse lugar esses humanos vão sofrer suplícios eternamente, como forma de punição pelos pecados que tenham cometido na Terra. A definição desses suplícios tem sido objeto da especulação humana desde muitos séculos atrás. Imagina-se mil formas e ferramentas sem fim que o capeta use para torturar as almas pecadoras. Há inclusive extenso anedotário a respeito. A mais comum e que se leva mais a sério, parece ser a idéia de um caldeirão de água – ou algum outro líquido – fervente, onde o príncipe das trevas fica cozinhando suas vítimas.

É óbvio que, dada a negativa da Igreja em reconhecer a reencarnação, o volume de almas que Deus cria incessantemente é gigantesco. Ou seja, supondo mesmo que uma parte pequena dessas almas acabe no inferno após a morte física, há que se contar com muitos caldeirões e uma quantidade razoável de demônios para ficar eternamente dedicada ao serviço de cozinhar essas almas. Também para isso a Igreja tem sua teoria: diz que Lúcifer não se retirou sozinho da presença de Deus, quando foi fundar o inferno, mas que teria levado uma horda substancialmente numerosa consigo. São seus asseclas. Impressiona é que, tendo se revoltado contra a Suma Bondade de Deus, esses demônios não tenham jamais se revoltado contra o seu líder em momento algum. Ou seja, revoltaram-se contra o banquete dos céus, mas aceitam as condições horrendas do inferno sem murmurar contra um líder perverso que os obriga ao trabalho sujo por toda a eternidade.

Essa definição do demônio provoca algumas reflexões:

A primeira delas diz respeito o retrocesso de um ser. Admitirmos que alguém que goza do mais alto escalão na hierarquia dos seres, alguém que atinge a ventura máxima de conviver face a face com o Criador possa sentir-se tentado a retroceder e abraçar o mal de modo tão definitivo é aterrador. Se um anjo não conseguiu viver sem cogitar o mal tendo sido criado como anjo e estando convivendo com Deus, quais são as esperanças de almas tão falhas quanto as nossas que sequer temos a investidura de anjos? Poderemos ainda ter a ilusão de que conseguiremos viver com Deus por toda a eternidade, se a cada milésimo de segundo uma idéia minimamente impura nos irrompe o pensamento e nos tira do prumo?

Lembro-me aqui de algumas das figuras mais ilustres da própria Igreja, que nos servem de modelos, elevados à categoria de Santos pelos imensos esforços de caridade a que se entregaram, pelas mortificações a que muitos deles se submeteram. Em muitas dessas biografias constam relatos de terríveis crises de fé, de árduas lutas para se manterem fiéis à inspiração divina.

Francisco de Assis, um dos maiores ícones da religiosidade da Igreja, já no leito de morte, disse aos seus seguidores: irmãos, é preciso começarmos, porque até agora pouco ou nada fizemos.

Se um anjo, na presença de Deus, digamos, não “se garantiu”, que luta inglória se revela essa.

Está perfeitamente claro que a doutrina de um Lúcifer decaído, que se tenha transformado no príncipe das trevas é errônea.

Assim como é loucura crer que possa haver um ser eternamente devotado ao mal, meticulosamente dedicado a se contrapor a Deus. Assim como é insano imaginar um Deus que gaste as suas energias e seu tempo “disputando” almas com essa criatura. Almas que Ele criou com um amor incomensurável e indizível e que Ele jamais entregaria à perdição, fossem quais fossem os seus delitos.

Nós somos de Deus, a Ele pertencemos e Sua misericórdia para com nossos delitos é infinitamente maior que todo o raciocínio que possamos esquadrinhar. Ele não nos criou para a perdição, mas para o progresso contínuo, somos fadados à perfeição e não há nada no Universo que desconstrua essa verdade. Ele nos concede sempre um novo dia e uma nova existência para abandonarmos os nossos maus hábitos e caminharmos em direção à Sua Luz.

Por fim, seguindo a lógica da amiga da minha mãe, nos veríamos obrigados a imaginar um demônio que, não bastasse as suas ocupações em recolher e punir as almas renegadas, se dedicasse a elaborar uma obra tão extensa e coesa no bem quanto a doutrina espírita, criando-a em suas mais profundas verdades sobre a caridade e a fé. E ainda conduzindo uma obra de tamanho vulto, que em inúmeras partes do planeta ocupa milhões de espíritos desencarnados. Todos, estariam sob a sua direção, sendo orientados há mais de cento e cinqüenta anos a pregar falsamente o amor, a paz e as virtudes entre os homens.

Definitivamente, creio firmemente que o Espiritismo, assim como as inúmeras, religiões não seja obra de nenhum demônio.

sábado, 2 de outubro de 2010

Infância

Quando criança, morava com meus pais e meus irmãos numa casa muito antiga, na fazenda de meu avô.

A velha tapera fora testemunha do nascimento de minha avó paterna. É o que se conta ainda hoje.

Eu amava aquele lugar, que para mim parecia gigante - como, aliás, tudo nos parece gigante quando somos crianças. Gigante também era o nome da variedade de bambus que margeava o córrego mansinho que corria no fundo do quintal. E eu tinha um medo danado das moitas de bambu gigante, sobretudo quando um vento forte as sacudia, provocando estalos dos mais variados tipos. Quase sempre antes de uma chuva torrencial chegar lavando tudo. Sim, na minha infância todas as chuvas pareciam ser torrenciais.

Mais acima, mantendo a velha tapera distante dos amedrontadores bambus, haviam três imponentes jabuticabeiras-do-mato, daquelas que dão frutas enormes e custosas de amadurecer. Na realidade, mesmo quando maduras as frutas daquelas árvores pareciam embotar a boca da gente, de modo que, a minha mente infantil, afora e a sombra que aquelas jabuticabeiras proporcionavam pra gente brincar, nenhuma serventia para elas encontrava.

Impressão semelhante guardo até hoje da laranjeira que impunha-se entre as tais jabuticabeiras e a velha casa. Minha mãe ensinou-nos que era laranja-de-fazer-doce, por isso não comíamos os seus frutos. Entretanto, a menos que minha memória esteja me ludibriando, não me lembro jamais de comer doce daquelas laranjas de casca grossa e áspera.

Deliciosas mesmo eram as laranjas que produzia o pé de laranja que o meu pai chama de Ribeiroa. Essas, além da polpa saborosíssima com que seus gomos nos agraciavam, era a mais acessível das frutíferas, porque seus galhos pendiam bem encostadinhos na varanda dos fundos. Quando bem carregada, até a nós crianças era muito fácil alcançar as laranjas amarelinhas, simplesmente subindo na mureta.

O quintal zelosamente cuidado pelo meu pai, ainda contava com goiabeiras, um enorme abacateiro, amoreira, várias jabuticabeiras menores (ou comuns, como a gente dizia), bananeiras de diversas variedades, pessegueiro, um pé de limão-china, um pé de romã, uma abundante parreira de chuchu etc. Sem falar na grande e variada horta.

Meu irmão e eu muito cedo fomos para a lida na lavoura de café e nas - assim chamadas - culturas anuais de milho e arroz. Assim que ganhamos matrícula na escola, cada qual ganhou também sua enxadinha pra aprender a cuidar da terra. Bem de manhãzinha nos levantávamos e partíamos para a escolinha primária, que ficava na Fazenda Aleluia, também acompanhados pela minha irmã, nos primeiros anos, antes que ela se mudasse para a casa da madrinha na cidade para cursar o ginásio. Além de nós três, havia outras crianças que nos acompanhavam no trajeto de pouco mais de quatro quilômetros de estradinha de terra até a escolinha. Umas eram filhas dos empregados da fazenda do vovô e outras, filhas de sitiantes e fazendeiros vizinhos.

A rotina era rigorosa para nós. Depois que voltávamos da aula ministrada pela dona Neuza Eleutério e pelo “Seu” Raul Teixeira Lopes, rapidamente almoçávamos e trocávamos os trajes de alunos por roupinhas mais simples e um par de botinas. Logo éramos vistos caminhando para o trabalho na lavoura, onde ficávamos ajudando o papai até que o sol ameaçasse se por no horizonte.

De volta em casa, já de noitinha, o tempo era dedicado à lição de casa.

Após o jantar que a mamãe preparava no velho fogão a lenha, meu irmão e eu ainda encontrávamos energia para brincar um pouco à luz de lampião. Com o tempo, nossa casa ganhou o benefício da energia elétrica. E com ela, veio a TV, aquele monstrengo de botões engraçados e imagem preta e branca que fazia a sala da velha casa azular depois da janta, prendendo a atenção do papai e a mamãe, fosse ao telejornal ou nas novelas.

Como dormíamos cedo naquela época! Íamos pra cama bem antes do horário em que hoje a moçada sai pra balada.

Entretanto, como já naquela época eu tinha bem pouco sono, adorava contemplar a noite estrelada. Gostava de abrir a janela e ficar ouvindo aqueles ruídos típicos da noite no campo. Grilos, sapos... A noite no campo tinha sons mágicos. E o céu, sempre lindo.

Mas tinha algo que me tomava os pensamentos de maneira incomum. Da janela do quarto era possível avistar ao longe os carros que passavam pela rodovia. Rodovia da qual hoje sei o nome, sei a quais cidades conduz etc. Mas que naquela época dourada era uma completa incógnita pra mim.

Lembro-me apenas de ficar contemplando os faróis e que iam e vinham e deixar a minha imaginação voar. Perdia-me em questões como: Quem estará dentro daquele carro? Como e onde vive? Quais são seus sonhos, seus gostos, suas alegrias e tristezas? Será uma pessoa feliz? Para onde estará indo? Movido por quais razões corta a rodovia a essa hora da noite? Será um homem, um pai de família? Terá filhos? Uma esposa? Ou será toda uma família viajando feliz para algum passeio agradável? Será que viajam cantando, ou conversando sobre algum assunto de família?

Eu podia passar horas tecendo conjecturas a respeito daquelas pessoas que para mim não passavam de anônimos. Pessoas que jamais imaginariam que a quilômetros da rodovia um menino estivesse pendurado na janela velha de uma tapera contemplando a noite e observando o movimento dos carros na pista. Pessoas que viveram cinqüenta, setenta anos, morreram e nunca souberam da minha existência. Pessoas das quais eu jamais verei os rostos ou ouvirei as vozes, ainda que eu viva cinqüenta ou setenta anos.

Ainda hoje, guardo em mim questionamentos semelhantes ao daquele menino da fazenda.

Andando pela cidade, esbarrando com um sem número de pessoas, cada uma com sua urgência, cada uma com seus milhares de motivos para não se relacionarem comigo, às vezes fico a pensar quem são, como vivem, o que pensam e sentem circulando anônimos pela cidade, tão mais próximos de mim que os passageiros dos carros na rodovia da minha infância.

Muitos deles cruzam comigo nas calçadas ou nas ruas inúmeras vezes. No entanto eu nunca soube seus nomes, seus sonhos, suas tristezas ou alegrias, seu time do coração...

Tampouco eles sabem de mim, que eu sou um menino crescido na roça, contemplando carpindo mato e contemplando estrelas. Um menino com medo do bambu gigante, que nunca mais provou uma laranja ribeiroa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Rodovia

Carros que vão,
carros que vêm
transportando gente.

Gente à margem.
Gente que vai.
Gente que vem.
Cada vez menos sola no sapato.
Sempre mais sonhos na cabeça.

Carros vão e vêm,
gente vai e vem.
Ninguém sabe ao certo
o destino de ninguém.
Nem quer saber.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Futebol

A diretoria do Santos Futebol Clube acaba de dar um tiro no pé. Aprofundou uma crise que poderia ter sido resolvida internamente, jogou na lata do lixo todo o trabalho feito pelo Dorival - trabalho que rendeu bons frutos ao clube - , sepultou de uma vez por todas a harmonia que havia (ou parecia haver) entre seus atletas e, de quebra, criou um precedente perigosíssimo tanto para o próprio clube quanto para o futebol brasileiro como um todo.
Ouvi um comentarista esportivo dizer que os dois lados foram responsáveis para o rompimento: tanto a diretoria quanto o técnico, que teria sido inflexível.
Me pergunto, qual o patamar razoável de flexibilidade quando se lida com uma equipe de futebol apinhada de craques que em menos de um ano foram alçados à categoria de estrelas, ovacionados pela mídia e por uma torcida apaixonada? Como lidar com egos que sairam do anonimato e passaram a valer milhões de dólares cada um? Sobretudo quando, no caso de Neymar, trata-se de um jovem de família humilde e tem tão pouca idade.
Qual o limite da flexibilidade, então? Teremos que tolerar, dentro de pouco tempo, que um jogador mande seu técnico calar a boca e deixe sua estrela brilhar?
Quando senhor Luis Álvaro deu declarações insinuando que o Dorival quis ser "maior do que o Santos Futebol Clube", no mínimo ele demonstrou que tem uma visão, no mínimo, míope das circunstâncias.
A postura do jogador Neymar, sim, foi a de se comportar como quem deseja ser maior que seus companheiros de equipe, maior do que o técnico. Isso, no meu singelo entendimento, é a forma mais acintosa de colocar-se maior que o clube. O que é o clube se não seu elenco e sua equipe técnica? Quem, afinal, constrói a história do Santos senão aqueles que duelam juntos (como equipe) dentro das quatro linhas, orientados pelo seu comandante? Foi contra essa realidade que Neymar se insurgiu quando desacatou o técnico e o capitão do time. Se isso não é tentar se fazer maior que seu clube, eu não sei o que o será.
Quando a diretoria do Santos age punindo o treinador num episódio como o que atingiu o clube nesses dias, ela assina uma procuração para que qualquer atleta indisciplinado afronte qualquer autoridade dentro ou fora de campo.
Deus os ajude para que amanhã eles mesmos não tomem um "cala a boca" do Neymar ou de alguma outra estrela ascendente. E aí, quem será maior que o clube?

Ps.: não deixem de tomar em consideração que esse é o comentário de um corinthiano apaixonado, que enxerga as coisas de seu ângulo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Nosso Lar

Tamanho foi o impacto que o filme Nosso Lar teve em minha vida que decidi não escrever nada de imediato no dia em que o assisti. Eu precisava de tempo para concatenar as idéias, absorver plenamente as sensações que ele me proporcionou. Entender tudo o que se processou dentro de mim diante da história do médico André Luiz.
Hoje entretanto, quatro dias depois de tê-lo assistido, venho confessar a minha impotência em descrever o indescritível. Venho dizer que é provável que eu gaste o restante dessa existência para digerir tudo o que esse filme significou na minha experiência como espírito e enquanto espírita. Não! Talvez eu gaste algumas reencarnações para entender um mínimo do processo que se passou com André Luiz e quiçá um dia consiga lograr compreender melhor o meu próprio processo.
Melhor então fazer logo um convite: assista o filme. Confira você mesmo e deixe André Luiz falar ao seu coração.
Certamente, você não passará incólume pela experiência. E descobrirá, você mesmo(a) que também tem seu processo, sua trajetória. E que pode fazer dela como bem entender, quando quiser. Sobretudo, pode mudá-la pra melhor.