quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Nosso Lar
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Homossexualidade
Poucos assuntos são tão controversos na nossa sociedade, poucos tão propensos a estabelecer tabus. E poucos são tão reveladores da hipocrisia humana quanto a homossexualidade.
Quase todos nós já presenciamos (ou participamos) de conversinhas secretas sobre um colega de trabalho gay, uma colega assim... “meio sapata”. Há um escarnecimento geral quando uma dessas pessoas passa a fazer parte da equipe de trabalho na empresa, quando entra pra nossa turma na escola ou quando é um primo meio distante ou uma prima que sempre aparece no Natal etc.
Piadinhas, trocadilhos, humilhações veladas, um tratamento ora frio demais, ora acolhedor em excesso – quando a consciência acende a luz amarela de “estou sendo preconceituoso e isso é feio e está fora de moda. O fato é que nenhum ou nenhuma homossexual passa incólume pela convivência conosco, que nos consideramos “normais”.
De um modo geral, atiramos todos(as) eles(as) na vala comum da promiscuidade. O cara pode ser um talento nas finanças da empresa, mas “ele é gay” e sabe como é, né... A moça fala bem pra caramba, tem uma liderança incrível e ainda ajuda no departamento pessoal, mas... alguém disse que viram ela beijando uma mulher na boate, e além de tudo, com aquela voz grossa... sei lá...
Resumindo, a pessoa pode ter um talento incrível, ser honesta ao extremo, íntegra, batalhadora, responsável etc, etc, etc, se é homossexual, cuidado com ela: é depravada, leva uma vida paralela, é suja, não merece conviver conosco, que somos “pessoas normais”. Tudo o que povoa a mente humana referente ao tema “promiscuidade” me faz rotular aquela pessoa como segundo escalão humano, menos digna que eu e meus amigos.
Pode haver algo mais hipócrita em nosso meio?
Sim, porque se o cara é competente na empresa e ainda vai pro motel comer a secretária no fim do expediente, ele é perfeito. As rodinhas de conversas sobre ele o exaltam, os olhos brilham ao comentar a capacidade do cara de ser tão cafajeste e se dar bem com a secretária gostosa enquanto a mulher dele espera em casa com o jantar na mesa. “Cara! Ele tá comendo aquela secretária gostosona que começou aqui no mês passado!” “O cara é dez!” Ele vira o herói da turma do escritório.
Se a moça, além de ser bilíngüe, ter pós graduação em gestão de pessoas e elaborar memorandos magnificamente, ainda transa com o chefe do departamento, ela é aplaudida.
Nesses casos o filtro da promiscuidade é desligado.
Aliás, em se tratando de promiscuidade, vou mais longe e pergunto: quem é mais promíscuo: o cara que paga uma garota de programa pra ter um sexo mais quente, pra fazer aquela boquete ou o sexo anal a que a mulher dele se recusa terminantemente, ou aquele sujeito discreto, que vive um relacionamento estável e respeitoso, fiel ao seu parceiro, companheiro em todas as circunstâncias?
É muito curioso que nós heteros admitamos sentir asco quando nos passa pela cabeça a imagem de duas mulheres transando ou de dois homens se acariciando. Há dados sobremaneira reveladores da mentira dessa afirmação.
Cito como indicativo, apenas uma das versões do vídeo que mostra a cantora Daniela Mércury beijando sua bailarina no palco soma mais de quinhentas e sessenta e seis mil exibições. E eu creio que não foram apenas homossexuais que clicaram lá pra assistir. Até porque suspeito que gay que é gay não fica assistindo beijo gay. Vai lá e beija.
Todos sabemos que a grande maioria dos homens tem uma fantasia com duas mulheres transando.
Só que essas manifestações são politicamente incorretas e vão todas para o gueto da nossa vida íntima, assim como insistimos em atirar no gueto da vida social os(as) homossexuais que estão entre nós.
Já é hora de pararmos com isso!
Há uma legião de homens e mulheres de bem, tão dignos quanto qualquer cidadão ou cidadã heterossexual, que vivem entre nós, mantendo relacionamentos baseados em princípios sólidos, respeito, amor sincero e fidelidade (suspeito que os gays sejam muito mais fiéis que os heteros).
Eles e elas estão aí, se movimentando dentro da nossa sociedade, trabalhando, fazendo arte, dirigindo religiões, cursando faculdades, gerindo órgãos públicos e empresas, tentando levar a sua vida de cabeça erguida e com a dignidade que todos nós merecemos e reinvindicamos.
Chega de hipocrisia.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
De como e porque
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Eleições
Assistindo ontem à estréia do programa eleitoral gratuito fiquei penalizado. Sim, fiquei com pena de ter que votar em apenas um candidato dentre os que disputam a presidência. Afinal, são todos tão inteligentes, aparecem tão bem maquiados e tão bem intencionados na TV que dá dó ter que desprezar qualquer um deles.
Cada qual mostrando a sua trajetória de vida, nascidos em famílias humildes, batalharam muito para conquistar estudo e posição na vida.
E o que dizer da militância deles? Meu Deus! São currículos de fazer inveja a São Francisco de Assis, tamanha a sua dedicação aos pobres e desvalidos da sociedade, sua luta por um país mais justo, com melhores condições de vida para todos os brasileiros.
Assistindo ao programa eleitoral dá mesmo pra se ter a nítida impressão de que todos, sem exceção, nasceram predestinados a ser presidente (ou presidenta) da nossa amada e idolatrada república.
Não há um deles que não apareça beijando criancinhas pobres, abraçando velhos moribundos ou comendo um pastelzinho no mercadão popular. A gente fica mesmo emocionado de ver como o futuro do nosso país está assegurado com tanta gente boa assim querendo governá-lo.
E os discursos. Memoráveis!
“Vamos melhorar a saúde, investir na educação dos nossos jovens, reajustar o salário mínimo acima da inflação, acabar com os pedágios, reduzir os impostos, melhorar a segurança pública etc...etc...etc.”
Dos três candidatos rotulados pela mídia como “principais”, dois tiveram seus partidos por oito anos à frente da presidência, sendo que ambos foram ministros em seus respectivos governos. Ou seja, tiveram participação ativa. Dessa experiência toda nasceu a cansativa cantilena do “nós fizemos isso, eles deixaram de fazer aquilo”.
Nos telejornais da TV aberta, tenho acompanhado matérias que esboçam um interessante raio-x do Brasil, como é típico nessas épocas eleitorais. Vou ressaltar aqui o que me restou na memória da enxurrada de informações que as emissoras despejaram em minha mente:
· 53% é a carga de tributos que está embutida no preço da gasolina;
· 44% dos municípios de Goiás não têm sequer uma unidade de pronto atendimento de saúde;
· O governo brasileiro arrecadou em julho/2010 o montante de 67,973 bilhões de reais;
· O mesmo governo aplica em saúde menos de 2% do PIB.
Resta agora algum dos(as) nobres candidatos(as) colocar de vez as cartas na mesa sobre seus planos para erradicar definitivamente um mal que envergonha o Brasil perante o mundo inteiro: a carga tributária que rouba o cidadão de bem e deposita nas mãos de milhares de administradores desonestos ou incompetentes o seu suado dinheiro.
Teremos que descobrir, entre esses sorrisinhos e essas juras de boas intenções, qual deles está mesmo disposto a realizar as mudanças estruturais que nosso país necessita para alcançar desenvolvimento com um mínimo de justiça social.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Oração
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Deserto de Desespero e Vida
domingo, 1 de agosto de 2010
Crônica do Amor
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa."
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Urgências
Evoluir Sempre
Olho através da janela do escritório nessa manhã e penso nessa necessidade de evolução.
A árvore que balança as suas folhas ao vento, não sabe que está evoluindo.
Será que ao volante dos carros que passam na rua, os motoristas sabem que estão evoluindo?
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Pai
Um abismo aparentemente infinito
vem engolindo nossa relação.
Um silêncio hostil nos mantêm frios
dentro da casa que parece cada dia menor.
Sei que o amo, nunca duvidei disso.
Difícil entretanto, encontrar esse amor
sob os escombros resultantes das tempestades
que fizeram chover mágoas torrenciais
sob o edifício frágil da minha tolerância.
Inúmeros pequenos gestos teus me irritam.
Olhares cheios de significados
que a boca sabe-se completamente
dispensada de pronunciar
ferem-me a susceptibilidade.
Não consigo mais caminhar em sua direção.
E quanto mais cabelos brancos vejo em sua cabeça,
tanto mais se multiplicam meus medos.
Porque a vida segue inexorável roteiro
em que as energias minguam até se exaurirem.
Um dia os velhos se vão
e deixam seus jovens para trás
afim de que eles carreguem as alegrias de suas lembranças
e os remorsos de suas atitudes indignas.
Até que se tornem velhos também eles.
E agradeçam por ter que deles se lembre com algum carinho.
Memórias
Não sei porque ainda hoje sonho reiteradas vezes que estou de volta ao seminário. Sonhos quase sempre passados em uma construção antiga, com corredores e clautros muito semelhantes aos do Noviciado de Rodeio, em SC. Invariavelmente estou rodeado de colegas e a conclusão a que chego é sempre a mesma: "O que é que eu estou fazendo aqui novamente? Faz tanto tempo que eu fui embora!"
Algumas vezes vejo-me paramentado para celebrar a missa. às vezes só, às vezes na companhia de outros padres.
Quando seminarista eu cultivava costume semelhante ao do personagem-narrador de "Informação ao Crucificado", João Falcão. Escrevia num diário o meu cotidiano, minhas percepções acerca da vida religiosa, minhas dores íntimas, frustrações e alegrias.
Na realidade, comecei a escrever bem antes de ingressar no seminário. Tinha já uns cinco ou seis cadernos de anotações.
Vez ou outra eu dava uma espiada em uma data que correspondesse em dia e mês de anos anteriores. Por exemplo: se tivesse hoje meus cadernos em mãos, iria verificar o que eu escrevera num dia 28 de Julho passado. Às vezes pesquisava a mesma data em dois, três ou mesmo quatro anos diferentes.
Foi isso que começou a me deixar entediado: comecei a notar que minhas crises eram cíclicas, os problemas e angústias haviam se transformado num círculo vicioso em minha vida. Um dia notei que, com 27 anos, eu sofria as mesmas dores, tinha as mesmas inseguranças e frustrações de minha adolescência. Fiquei estarrecido e muito depressivo.
Não tardou muito a que eu me decidisse a queimar tudo aquilo, numa decisão de exorcizar meu passado e romper com aquela ciranda.
De certa forma, funcionou. Mas, como escritor, não posso negar que tenho certo arrependimento por ter colocado fim a tantas memórias.
Hoje imagino que eu poderia ter alcançando progresso sem necessariamente o ritual da queima dos cadernos. Paciência, está feito.
Queimados os meus cadernos de memória, resta-me saborear as de Carlos Heitor Cony.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Cony
Na realidade, minha relação com Cony é um tanto controversa. Meu primeiro contato com ele foi por meio de seus artigos na Folha de São Paulo, quando eu ainda era seminarista. Já frade franciscano, li "A Casa do Poeta Trágico", livro que me encantou e do qual, para minha surpresa, na entrevista de hoje ele disse que não gosta.
Mas a minha mais grata surpresa com o Cony foi "Informação ao Crucificado" em que ele faz praticamente uma auto-biografia de seus tempos de seminarista. Minha identidade com a sua experiência fez-me saborear cada sílaba do livro como se eu estivesse vivendo junto com o personagem aquele dia-a-dia cheio de dramas íntimos, histórias pitorescas e personagens estarrecedoramente reais.
Claro que àquela época eu já sabia que o Cony havia estudado em seminário católico. Aliás, era isso que me fazia permanecer atento a tudo que rodeava seu mundo: um documentário, uma entrevista, uma homenagem. Qualquer coisa que me ajudasse a enxergar melhor aquele homem que, assim como eu, houvera passado por uma experiência marcante de vida eclesial e que, também assim como eu, deixara a Igreja. E mais uma coincidência: assim como eu, inclinara-se à literatura.
"Informação ao Crucificado", lido quando também eu já havia abandonado a Igreja, apaziguou essa sede que eu tinha de desvelar o Cony seminarista. E eu gostei muito do que li, em muitos momentos me identifiquei, emocionei-me e ri também.
E também confrontei a minha vivência com a dele, guardadas as devidas proporções, leia-se: a distância no tempo, as normas do seminário em sua poca - bem mais rígidas que em meus dias - e, obviamente, Carlos Heitor Cony é quem é. Eu sou um ilustre anônimo. Disso tudo, resta uma comparação fundamental: Cony ignora Deus, é um ateu lúcido e inexorável, enquanto eu, ainda que nos meus auges de crise com a doutrina católica, jamais descri de Deus.
Bem, como eu disse no início, minha relação com o Cony é controversa. Explico-me: malgrado toda admiração que nutro por ele, as tentativas de contato foram frustradas.
À época em que li A Casa do Poeta Trágico, mandei extensa correspondência para ele, elogiando o livro e, claro, fazendo uma sutil propaganda de minhas pueris atividades literárias. Na ocasião, como eu nem sabia teclar num computador e internet pra mim era assunto de futuristas, consegui o endereço da redação da Folha de São Paulo e enviei pra lá, devidamente endereçada a ele. Jamais recebi qualquer resposta, numa época em que eu romanticamente achava que um escritor consagrado pudesse dar atenção à correspondência de um aprendiz de poeta de uma cidade do interior.
Ao terminar de ler Informação ao Crucificado, ainda mais motivado e já um sobrevivente no ciberespaço, descobri um site do escritor. No site, um endereço de email que parecia levar diretamente a ele minhas palavras. Muitas palavras e uma propaganda já nem tão sutil e carente de modéstia. Novamente o silêncio. Nunca houve uma resposta.
Até hoje me pergunto: porque raios uma pessoa pública cria um site e divulga nele um email de contato se ela jamais responde às palavras amáveis de um admirador, sobretudo um admirador-discípulo?
Já falei com uma pessoa que o conhece pessoalmente e que me garantiu que ele é mesmo inalcançável, que é um tanto arrogante e deliberadamente solitário. Como diriam no seminário, um legítimo anti-social.
Ora acredito que isso seja verdade, ora duvido... No fundo, não me importa.
O que importa mesmo são as sensações que a sua literatura já me proporcionou.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Sozinho
construido com zelo,
tijolo a tijolo.
Palavras caladas
dentro do coração.
Pensamentos tolos
sem expressão.
Mesmo diante da negativa constante
de um outro alguém em seu espaço,
pouco a pouco vai baixando a guarda
como quem vê a velhice chegar
e o espelho criar rugas, dizer rabugices.
Agora quase quer um amor.
Não! Amor nessa altura já não vem...
Talvez simples companhia discreta
pra tomar uma sopa nos dias frios.
Alguém que ouça seus queixumes
com um sorriso no rosto.
E ao menos diga: "não se preocupe".
Ou talvez: "posso te ajudar?"
Quem suportaria suas manias?
Quem se animaria a fazer presença
na vida que toda a vida foi só ausência?
Nada de filhos, nenhuma grande paixão
ou aventura pra narrar.
Nenhum grande feito em todos aqueles anos.
Apenas um par de chinelos se arrastando pela casa
e intermináveis xícaras de chá na frente da TV.
Sem histórias pra contar. Pior: pra lembrar.
Pra contar se pode inventar alguma.
Mas quando a cabeça pousa no travesseiro
vazia de recordações significativas
não há fantasia que preencha os anos vividos sem vida.
Quase deseja uma companhia.
Ainda que seja para um carteado monótono
ou para usar mais uma xícara,
à espera do sono cada dia mais escasso.
Ainda que seja para que a morte
Não se sinta constrangida de chegar
e não subraí-lo de ninguém.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Humberto
Silêncio...
- Vamos, pessoal! Nome? Idade? Familiares!? Será possível que ninguém aqui sabe nada a respeito dessa pobre criatura?
Quando está prestes a se irritar com a multidão que se aglomera, trânsito que vai ficando cada vez mais lento e o silêncio das bocas famintas dos moradores de rua, o homem grave ouve uma voz rouca quase que por cima de seu ombro:
- Humberto.
- Hein!? - Vira-se para ouvir melhor ao mesmo tempo em que passa pela cabeça que logo logo estará usando aparelho de surdez, feito seu velho pai.
- O nome dele era Humberto, tadinho! - Repete a dona daquela voz quase sumida no ruído da cidade, uma senhorinha maltrapilha com somente um dente inferior, vestida em trapinhos imundos.
- Humberto de quê?
- Ah, isso eu num sei não, dotô! Até teve um dia, logo anssim que ele chegou aqui, que me mostrou os dicumentu... Mas eu num sei lê, né...
- Bom, então temos uma pista. Ele tem documentos. Onde é que ficam guardados? Nos bolsos não tem nada...
Enquanto diz isso, o delegado meneia a cabeça em sinal a um dos investigadores que o acompanham, como que ordenando que vasculhasse a área.
- Tem mais dicumento não, dotô! - retorna a velhinha. Tem mais de ano que os nóia cataram as coisas dele. É só a ropinha do corpo, mesmo. Que nem nóis tudo aqui.
- Que droga!
- Só uns fuminho...nada além disso, dotô. Crack, mesmo, ele nunca quis porvá!
O delegado se volta para a velhinha desdentada, começando a bater os braços para esbravejar algo, mas desiste diante de tão decrépita figura.
- Faz muito tempo que ele vivia aqui?
- Tem pra mais de ano e meio, dotô.
- A senhora conversava muito com ele? Sabe se ele tinha família? Amigos?
- Ué... ele sempre falou que a mãe dele era viva, que chamava... Rosa e que tinha casa e tudo... Mas nunca apareceu ninguém aqui.
- Rosa... Humberto... Vai marcando aí, Macedo.
Macedo, um investigador esguio, óculos na ponta do nariz, empunha um bloquinho de anotações na mão esquerda. Com a mão direita saca da orelha uma esferográfica e, com uma expressão absolutamente descrente, começa a anotar as informaçoes de mais um das dezenas de cadáveres que ele está acostumado a fotografar e catalogar todos os meses.
Nome: Humberto...?
Idade: + ou - 23
Mãe: Rosa...?
Residência: Morador de rua.
- Ele tinha alguma companheira? Pergunta do investigador.
- Só aquela ali, ó. Afirma a velhinha, enquanto aponta uma cadelinha magrela sentada próxima ao corpo.
- Bem... acho que ela não vai ajudar muito...
Estado civil: solteiro.
Causa da morte: cinco tiros, sendo dois na cabeça, um no abdômem e dois no braço direito.
Local do crime: Praça da Paz, s/n.
Quando escreve "Praça da Paz", o investigador pára, olha para a pracinha toda salpicada de lixo, com gramado suplicando água e uma meia dúzia de bancos de cimento quebrados. Meneia a cabeça e sussurra um "tsic".
O delegado, agachado, examina mais detalhadamente o cadáver e pensa em silêncio:
"Esse rosto... estranho... não é um rosto de morador de rua. Os traços são muito delicados."
Aproxima-se, então um jovem em trajes tão maltrapilhos quanto os dos demais moradores de rua ali presentes. Ao ver o corpo magro caído de bruçus, ele imediatamente reconhece a vítima e derrama lágrimas silenciosas.
- Meu Deus! Tadinho do Beto! Quem foi que fez isso, doutor? Pelo amor de Deus, me diga: quem foi que fez essa barbaridade?
- Estamos tentando descobrir, meu filho... estamos tentando. - diz o delegado, despertado de suas indagações pela voz chorosa do jovem.
- Ele era um coitado, doutor! Nunca fez mal a ninguém. Vivia ajudando a gente aqui.
- Você o conhecia bem? O que sabe sobre ele?
- Bom, eu chamava ele de Beto. Mas o nome dele era Humberto...Arantes, se não me engano. Fazia pouco mais de um ano e meio que ele veio pra cá. A gente ficou muito amigo.
- E ele falava da família? Pai, mãe...? Tinha algum endereço?
- Ele disse que morava no Morumbi, que a família era bem de vida. Depois que o pai morreu, a coisa desandou, apareceram outros herdeiros. A mãe dele, uma tal de dona Rosa, descobriu que o marido sempre teve outra família e parece que pirou. Acabou internada em sanatório. Parece que os irmãos bastardos tomaram conta da empresa do pai dele e botaram ele pra correr. Ele perambulou por vários viadutos de São Paulo até vir parar aqui. Depois que veio pra cá, a história é igualzinha à de qualquer um de nós: vieram as drogas, um assaltozinho aqui, outro ali pra se sustentar e comprar um baseado...
Delegado e investigador ouvem atentamente o relato do amigo que chora.
- Aí, o senhor sabe como é, né... A gente acaba arranjando uma treta aqui, uma treta ali... Mais cedo ou mais tarde acaba assim.
- E com quem é que o nosso amigo tinha treta?
- .....
- P...Q...P...!!! Esbraveja o delegado, suado, cansado, olhando todos os maltrapilhos à sua volta saírem cabisbaixos. Ninguém vai me dar uma pista!?
Segura então o braço do jovem depoente, tentando impedí-lo de seguir os demais.
- Quem é que fez essa cagada aqui!? Quem tinha motivos pra matar um moleque que só ajudava os outros e fumava um baseadinho de vez em quando!!?
- Sei não, doutor, sei não.
O delegado solta o braço do rapaz, que sai devagarinho com o rosto banhado em lágrimas.
Em poucos instantes a cena do crime só tem o cadáver, o delegado e três investigadores. Os moradores de rua se foram, os transeuntes vão e vem na sua rotina invisível.
O cinza desgastado da viatura se confunde com o concreto armado de uma construção que se ergue atrás da praça.
Aproxima-se a sirene trêmula de uma funerária. Ela encosta bem próxima ao cadáver de Humberto. Descem dois homens com luvas nas mãos. Eles olham em silêncio para o delegado por alguns segundos.
O homem da lei sussurra, enquanto enxuga o suor da testa:
- Pode recolher. É indigente.
- Mas, doutor, ele foi assassinado e...
- É indigente, eu já disse.
O delegado entra na viatura acompanhado de seus investigadores e saem em disparada, de volta ao plantão policial.
Longe dali, num hospital psiquiátrico, uma jovem senhora passa por um interrogatório médico:
- Sim, eu tenho um filho. Ele é lindo e vai ser médico um dia, assim como o senhor! Ele se chama Humberto! Já imaginou? Doutor Humberto Arantes!!!
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Letícia!!!

Puxa vida! Cometi um erro terrível no texto que publiquei a dois minutos atrás.
Em meio a tantas coisas desagradáveis, há um acontecimento magnífico: o nascimento de minha sobrinha Letícia. Foi o maior de todos os acontecimentos nos últimos anos em minha família.
E como se não bastasse, ela se tornou minha afilhada no domingo, quando a batizamos na Igreja de São Judas Tadeu, aqui em Franca, minha cidade.
Letícia, no latim, quer dizer "alegria". E é isso que eu imagino que chegou junto com ela, uma alegria permanente para minha família.
Em meu orkut tem fotos dela, inclusive algumas são do batizado.
Uma bobagem qualquer
Mas, como de fato eu ando absolutamente desanimado de escrever, tão imerso que estou em meus problemas cotidianos, eu sabia muito bem que qualquer tentativa de escrever hoje terminaria num monte de bobagens.
Pois bem: vamos escrever uma bobagem qualquer para ficar registrada aqui.
Oh, semaninha cruel essa que está se encerrando! Meu Timão caiu fora da libertadores, com Gornaldo e Cia, minha vida financeira continua o mesmo desastre dos últimos trê anos - no mínimo - e meu candidato a presidente da república simplesmente não é mais candidato.
Bom pelo menos recebi uma simpática resposta do gabinete do Ciro Gomes à manifestação de descontentamento que postei em seu site quando o PSB decidiu enterrar de vez a campanha presidencial de 2010.
Continuo tentando vender meu velho carro. Depois de baixar o preço por três vezes, estou quase convencido a dá-lo de presente a alguém. Mesmo assim, tenho receio de que ele seja recusado.
Agora, se tem uma coisa que está indo bem é meu namoro.
A Rita e eu estamos muito afinados e nos amamos de verdade. Isso me deixa muito feliz e faz os demais problemas diminuírem muito de importância.
Além do mais, nada melhor que um dia depois do outro. Sei que isso é um chavão, mas é bem apropriado ao momento que estou vivendo e me consola um pouco. Sei que ainda haverei de viver dias mais agradáveis.
Tenho que trabalhar para isso, é verdade.
E uma das maneiras mais prazerosas de trabalhar, no meu caso, é escrevendo. Preciso urgentemente redescobrir o prazer de escrever, como eu já fiz outrora. Houve um tempo em que eu escrevia compulsivamente.
Tenho, inclusive a idéia de um livro, um romance. Mas cultivo um certo receio em relação a isso. E explico: a história que eu tenho em mente passa-se em um ambiente eclesiástico, inspirada nos anos que vivi como seminarista, nos bastidores da Igreja. Como eu sou muito crítico e tenho uma certa munição, receio apimentar demais a história e criar uma polêmica que eu não quereria criar.
Ocorre que, quando eu começo a escrever, saio fora de meu normal, viro uma outra pessoa, sem muito controle sobre meu senso crítico e acabo destilando verdades que bem poderiam ficar guardadas dentro de mim até o túmulo.
Ufa!
Pra quem ia escrever só uma bobagem qualquer até que eu já me estendi muito.
Agora chega!
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Aniversário
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Finados
Há, num feriado dessa natureza, uma contradição típica do gigantesco paradoxo que é o ser humano. Ainda ontem estávamos chorando a partida de nossos familiares e amigos e hoje, de certa forma, estamos felizes que eles tenham partido. Afinal, isso nos garantiu um feriadão prolongado. Graças à desgraçada partida de cada um que se foi antes que nós, podemos beber nossa cerveja e assar uma picanha dignamente nessa segunda feira ensolarada. Aliás, não deveria estar chovendo? Não havia um consenso entre os nossos ancestrais - aqueles que agora estão do lado de lá - de que Finados é chuva na certa?
De qualquer forma, vamos aqui elevar a todos os nossos finados um agradecimento. Um generoso obrigado por eles terem se ido e garantido a manutenção de nosso descanso prolongado.
O país dos feriados e de indolência agradece à enorme população que hoje habita os cemitérios espalhados por aí. Sou quase tentado a bradar: "Viva os mortos!"
Uma outra contradição que me inquieta: como é que se justifica a manutenção deste e de tantos outros feriados religiosos num país que jura que seu estado é laico?
Coisas do nosso Brasil, "abençoado por Deus e bonito por natureza".
Mas, ainda bem que apesar de todas as suas virtudes naturais, o Brasil ainda não é o Paraíso.
Afinal de contas, se o objetivo de morrer é ir para o Paraíso, os brasileiros não morreriam e, consequentemente, nos veríamos privados de um feriado.
Que loucura!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Quero

Quero uma taça bem cheia
Transbordante da mais completa loucura
Um misto da minha própria loucura
E da loucura do restante da humanidade.
Quero um amor tão inesperado e novo e intenso
Que me obrigue a uma série de gostosas adaptações
Do tipo: abandonar o trabalho no meio do dia
Só pra correr até ela e lhe dar um beijo molhado.
Um amor que me faça suportar a demência
Dessa vida medíocre e aparentemente vã
Em que passo os dias a suspirar por ideais que ninguém mais acalenta.
Um amor bem misturado com a vida, num coquetel alucinante e saboroso.
Quero a loucura completa e incurável de um amor real e palpável
Só pra ser feliz e fazer alguém feliz.
Só para sair na rua de manhã tendo a sensação de que o Sol está ali por minha causa.
E pegar o telefone no meio da madrugada e dizer palavras lindas pra ela.
Quero poder gargalhar sem absolutamente nenhum motivo visível
Que não seja minha própria satisfação em provocar a satisfação de outrem
Um corpo para desejar, uma mão para segurar, um par de olhos onde olhar
E enxergar toda a estrada que há de me conduzir ao infinito de mim mesmo.
Quero um amor que me obrigue a cantar músicas bregas
E abrir um bom vinho para acompanhar um jantar romântico
Que poderá, eventualmente, até nem evoluir para um sexo quente,
Mas que fatalmente me fará viver todos os meus dias com mais leveza.
